Por vias das dúvidas, a crônica do domingo saiu no sábado.
Porque nenhum dos dois dias existe no mapa do universo. Uma
marcha inexorável do próprio tempo. Amanhã será o dia da
Convenção do meu partido. Aprovado, como espero, serei candidato
a Governador do Estado. A partir deste limite serei um
teleguiado pelos rigores da lei eleitoral.
Eu ainda não sei o motivo porque entrei na política. Sei lá se
tem alguma coisa de genético. Ou quem sabe um desejo oculto pela
aventura. De sair por aí neste mar sem fim de turbulências,
procurando o que não guardei e ao mesmo tempo um verdadeiro
vendedor de sonhos.
Quando fui soldado eu fiz maneabilidade. Uma disciplina de
horrores, vestido a rigor, uniforme, coturno e fuzil, correr
pelo cerrado fechado, espinhos e capoeiras, no peito e na raça,
atravessar pântanos, riachos e rios. Como se a PM de Goiás fosse
entrar em guerra contra o Exército Brasileiro. A gente tirava
força do osso e seguia.
Porque tudo na vida é duro de roer. Quem sobrevive é um herói.
E sigo a marcha, quase inconscientemente, porque muitas
situações são imprevistas. Um natural acontecimento. E ele se
incrusta em nosso destino.
Mais um duro exercício pela frente. Quando fiz maneabilidade
eu tinha 18 anos e agora tenho 62, estou a fim de correr uma
maratona. Eu vou mergulhar em todas as águas limpas e turvas,
sem medo porque quero ser livre. Ficarei longe de casa quase
exclusivamente andando, um nômade neste Estado. Como um
missionário a anuncia a boa nova. Quanto mais difícil é a luta
mais se deve ser prudente. Muito mais ético do que na vida comum
de todos os dias. Fazer para o outro só aquilo que aceite que
façam com você. É a grande lição.
Serão noventa dias que estarei fora do ar. Sem escrever
crônicas e nem livros, ficar meio alienado, repetir discursos,
vender palavras ao vento carregadas de um poder invisível.
Porque o que mais vale num candidato, na sua evocação é colocar
o seu coração palpitante no coração do povo. O voto sai do
coração. Como o beijo fraternal.
Eu amo a liberdade, o grito do líder diante do povo. O Ir e
vir imprevisivelmente. Viver um tempo que se não existisse em
outro lugar. Mesmo assim é bom, porque o risco anima a viver. Ao
sair de casa o cidadão está se arriscando. Andar na rua, ainda
mais nos tempos de hoje, é correr risco a cada esquina. Até
mesmo o risco de uma bala perdida ou de uma motocicleta
desgovernada.
A campanha e a própria política ensinam a arte marcial da
resistência, fazer tudo aquilo que o homem normal jamais
conseguiria fazer. Nem sempre se gosta do que se faz plenamente.
Mas, cada um tem uma missão na terra. E deve cumprir o seu deve
para que se justifique a própria existência.
Creio que o sentimento que se tem numa campanha política é
quase igual a de um atleta na pista. Está ali ele e o
adversário. Como se fosse um verdadeiro gladiador romano. Será
que tudo isto é prazeroso? Claro que não é. Mas, é uma sensação
invariavelmente positiva a de ser testado no seu próprio limite
e se poder conhecer melhor. É como se diz “o homem que não tem
medo da morte está livre par viver”.
Muito bem, vou parar por aqui. Volto em novembro para dizer
pra vocês como foi a minha maratona. E colocar um pouco de
perigo à minha vida para que possa viver mais ardentemente.
O NOVO HOMEM
URBANO
13 de junho de 2010
Confúcio Moura
Olha gente, quero falar pra vocês hoje é que morar em cidade
não é fácil. E que tem cidade mais educada do que outra. No
entanto eu acho que não é a cidade que é mais educada do que a
outra. E sim o seu povo que é mais civilizado e que respeita a
convivência com outras pessoas. Porque cidade é cidade, nada
mais que um monte de ferro retorcido, terra e cimento. O que
salva a cidade é o próprio homem.
Morar em cidade tem um custo. Paga-se o IPTU, a taxa da coleta
do lixo, da iluminação pública, as taxas para construções e
reformas de suas casas. Enfim, tem um custo diferenciado entre a
cidade e o campo. E tem que ser assim mesmo. Com que dinheiro o
Prefeito fará o serviço de que necessita o seu povo?
Tem cidade mais limpa e bem cuidada. A Prefeitura varre a rua
e o povo não joga papel fora da lixeira. Que se respeita o sinal
vermelho no trânsito. O pedestre tem preferência na travessia da
rua. Os serviços de saúde são de boa qualidade. Ninguém quebra
galho do outro. Que se respeita o silêncio. Tem cidade que tem
calçada livre para qualquer cidadão andar nela.
Isto tudo é conversa chata. Mais ou menos papo de velho gagá.
Que isto tudo é sonho. Que toda cidade tem problemas, isto
ninguém duvida, no entanto, tem muita cidade mais educada do que
outra. A função do governante é educar o povo. Educar
coletivamente. Importante que se tenha regra e seja respeitada.
Que furtar não seja regra geral. Que não se tire vantagem de
nada. Que a lei é para todos igualmente. Que não se faça
“rabicho” de luz. Nem gambiarra na rede de água. Que não se
ponha água no leite. Que o governante seja exemplar. Que não se
faça xixi na rua e tudo fique bem normal.
O Brasil é quase todo urbano. A cidade exerce um fascínio
sobre as pessoas. Transmite ao homem uma sensação de felicidade
e grandeza. O homem na cidade tem a impressão de ser mais
importante e diferente. Ele chega à metrópole geralmente
despreparado e vai forçando a cidade a se adaptar à sua
realidade. E a sua realidade é frágil. Vão surgindo os
acampamentos desumanos. Vão se acumulando os problemas sociais e
a cidade se distorce dos seus objetivos. Ela passa a ser uma
selva de pedra.
Por isso tem-se que colocar alma coletiva nas praças e nas
ruas. Promover a ordem e a disciplina. Que tudo deve ser levado
bem a sério. É por isso que entendo que administrar uma cidade
ou um estado deve-se ter na cabeça este princípio básico: - do
respeito coletivo, da ordem pública, o dever cumprido.
Se nada for feito no seu bairro toda a cidade sofre. Se um
homem está infeliz a humanidade toda sofrerá por ele. Porque o
homem é um produto do meio. Se o meio é de abandono absoluto,
ele também se sentirá um abandonado. Um excluído. O Estado deve
estar em todos os pontos igualmente. Não apenas o centro da
cidade é que deve ser bonito. A todos merecerão os louros e as
glórias. Se lhes pede alguma coisa e não lhe é dado o homem, por
natureza embrutecerá.
Por no centro da vida – um princípio básico: o da equidade.
Dar mais a quem tem menos. É na periferia, na favela, no gueto
que se deve ter a escola boa. A saúde de qualidade. A praça
bonita. Para que o meio induza o homem a uma reação igual. Numa
cidade civilizada todo mundo é igualmente importante. Porque
todo homem tem o tempo certo para aprender. E que todo homem
aprende o que é ensinado. Quando a escola não ensina deixa um
vazio enorme. A rua ensina. O malandro ensina. A família é
indispensável na formação de uma cidade civilizada.
Surge o eterno paradoxo: quem está na cidade quer morar no
campo. Porque o homem é assim mesmo. Foge do interior rural,
mas, tem medo da solidão da cidade grande. Por isso que se deve
construir cidades mistas, que tenham pedaços de interior, de
paisagens, de florestas, de jardins, de lagos, de bichos.
Cidades que tenham pontos de encantamento, que amenizem as
visões, que façam as pessoas refletir, tirarem lembranças, que
valorizem os seus pontos de encontros. Porque gente gosta de
gente.
Porque a liberdade é o máximo da democracia. Ser livre é antes
de tudo poder viver bem. O homem tem um destino. O destino
geralmente é imprevisível. O destino depende de circunstâncias.
No entanto imprevisível ou circunstancial o homem que mora na
cidade deve cumprir regras claras. Porque a lei é o próprio
limite de tudo. E a liberdade é o exato cumprimento dela.
O homem no campo ou na cidade busca a felicidade. E o Brasil
está melhorando. E todo mundo quer ser feliz, quer respeito e
viver bem. E governar nada mais é do que se colocar ordem no
pedaço. Prever o futuro com planejamento. Você pode estar
pensando que este país não existe. E que tudo isto seja um sonho
delirante. Não! Este é o ideal de todos e só seremos felizes se
perseguirmos este sonho. Quem sabe utopia, o próprio infinito de
cada um e que poderemos alcançar o estado de bem estar pessoal.
NO MEU TEMPO ERA
MELHOR
Ariquemes, 6 de junho de 2010
Confúcio Moura
Por que se tem tanta saudade do tempo que passou? Sei lá,
cara! Só sei que tenho saudade da terra que nasci. Saudade da
pedra da praça, do balde d’água, da trouxa de roupa, do pilão no
fundo do quintal, da malva praguejando os largos das ruas.
Saudade das cenas eróticas livres, do relincho do jumento
despudorado, que não podia ver égua ou fêmea e de imediato
desembainhava a ferramenta imensa e se jogava pra cima delas no
mais estúpido ato de carinho, coices e mordidas.
Gente tem estas manias de saudosismo, de quase nada para se
contar, e que se conta assim mesmo, tudo muito bobo e sem
sentido, mas, que fica grudada na memória e de quando em vez lá
vem elas se passando como num filme em sonhos e lembranças. E
nem adianta se contar histórias, hoje em dia, tudo isto que foi
do seu tempo, porque o tempo de hoje não entende os outros
tempos passados. E nem interessa. A caretice é toda esta
conversa mole pra boi dormir. Hoje é diferente. O computador é o
soberano dentro de casa. Melhor ficar no computador do que
conversa com pai e mãe, nem se fala uma vírgula com avô. A
Internet vai por cima do bem e do mal. O que interessa é estar
plugado numa legal. E com dois celulares nos bolsos para não se
perder o contato com as tribos infernizadas.
Esta saudade não é saudade da pedra, nem da reza, nem do
leilão à porta da igreja, nem da festa de São João, saudade
mesmo que se tem não é de nada disso e sim o forte desejo de se
voltar no tempo, para se ser jovem de novo. O que se gosta é da
afoiteza e de se querer que tudo mude de jeito para se ajustar
aos imensos sonhos. Porque a juventude é o lugar de se viver a
eternidade.
Não dá para entender o choque das gerações, porque jovem é
jovem em qualquer tempo e lugar. E sempre existiram lutas entre
o velho e novo. E eles se chocam permanentemente numa pororoca
fenomenal. Porque um fala naquele tempo vivido e o outro diz do
tempo de agora. E sempre se deve dar a razão para a juventude
porque só ela faz a revolução. Os velhos querem mesmo é a
tranqüilidade de uma boa aposentadoria.
E é por tudo isto que o velho vai ficando sozinho com suas
lembranças. As eternas conversas repetidas. A falta de novidade
no dia a dia. O confinamento no quarto, o ir e vir no mesmo
caminho, sempre previsível, a notícia sempre ruim de morte de
amigo, de queda no banheiro. Conversa mesmo, de boca cheia, de
fazer rir e chorar quase não se tem.
Ainda tenho muitos parentes em Brasília. Quando estou por lá,
o que mais adoro fazer é justamente provocá-los dizendo que o
Lula é mais popular do que Juscelino. Daí pra frente é briga
certa. Ninguém com mais de sessenta anos e que more por lá e que
foi “candango” dos tempos de JK nem quer vê falar nisto. Pra
eles Juscelino está um degrau abaixo de Jesus Cristo. Mas,
pensando bem não dá para comparar os dois, de jeito nenhum.
Primeiro porque são diferentes mesmos, em quase tudo. JK era um
boêmio, romântico e namorador. Além do mais um sonhador
descortinado.
Lula é um bonachão, comedor de churrasco, torcedor do
Corinthians, gosta de farra na laje da casa, chama amigos para
compartilhar sua glória, não dispensa um gole de pinga. Vive a
sua vida de nordestino retirante e bucho cheio. JK era um sonso
mineiro, que fazia tudo na moita e que adorava galantear mulher
solteira e casada. Foi a tentação das encalhadas brasileiras que
suspiravam fundo com a foto dele na parede do quarto.
Os dois são memoráveis como políticos. JK era um visionário e
místico, acreditava nas profecias de Bom Bosco, fincou a capital
no ponto exato que Hipólito da Costa havia marcado mais cem anos
antes. E dividiu o Brasil em dois momentos distintos – o Brasil
rural profundo, de jegue na praça, de carro de boi, do esquecido
interior. E construiu outro Brasil da indústria automobilística,
siderurgia, petróleo. Abriu as principais veias rodoviárias do
nosso território. E fez Brasília com o céu mais bonito do mundo
e tudo dentro de um cenário de infinito.
O Lula não desperdiçou nada que o FHC fez. Como bom nordestino
fez o que devia fazer, segurou o cabresto do bode perto do
queixo e pôs pra fora uma pitada de socialismo neste Brasil
desembestado de capitalismo selvagem. E deu certo.
Mas, gente, veja bem, como é que conversa puxa conversa, saí
do silêncio do velho, meio perdido em si mesmo, para entrar na
vida do Lula e do JK. Tudo de boa intenção, para dizer que o
melhor que se pode fazer e como faz bem pra todo mundo - uma boa
conversa. E conversa de verdade, de pai com filho, de irmão com
irmão, de neto com avô, toda esta embolada que se chama família,
que se chama vizinho, que se chama escola, que se chama amigo.
Tudo isto junto que se chama cidade, deve ter sempre uma mão
cheia de humanismo, de carinho, de prosa na rua, de jogo de
dominó na praça, de carteado no quintal, de churrascada no final
de semana, de goles de vinho, de jarras de sucos de cupuaçu, de
beijos e abraços, de caipirinha de gole em gole. É tudo isto que
se chama felicidade. Que se chama viver bem.
CONVERSA FRANCA
COM OS PROFESSORES
Ariquemes, 30 de maio de 2010
Confúcio Moura
Vou rolar uma crônica de ladeira abaixo como se fosse num
tobogã. Entro de cara no assunto – a educação rondoniense.
Quero deixar aqui o meu testemunho, através de letras animadas,
que possam expressar o meu sentimento verdadeiro. Eu continuo
andando pelo Estado e vejo que os professores de Rondônia tem
sede de verdades e de propostas. A palavra de ordem é
valorização e respeito com o professor.
É bem sabido que uma coisa é falar e a outra é fazer. Não dá
para falar e fazer cem por cento. Mas, com certeza, dá para se
falar de intenções, de protocolos, de vontades e de desejos. E
isto eu tenho de sobra dentro de mim. Como diz qualquer livro
de autoajuda – primeiro pensar, depois agir. Se quero melhorar a
educação, só poderei atingir metas com a colaboração do
professor. Com a sua efetiva participação. Professor bom,
satisfeito e motivado, aluno melhor ainda. A recíproca é
verdadeira.
Educação é prioridade. Todo mundo diz isto. Todo mundo sabe
disto. O esforço é grande para que tudo melhore. Que o menino
aprenda a ler, escrever e contar. Tudo é muito lento para
acontecer. E na educação ainda é mais lento porque as medidas
demoram a aparecer aos olhos do povo. O cenário bom é que todo
professor fosse federalizado. E tivesse um complemento estadual
e outro municipal. Seria ótimo demais. Neste caso haveria grande
oferta de bons professores para atender a todas as crianças do
Brasil. Sem o professor não se pode fazer educação de qualidade.
O cenário dois é o atual e a sua dura realidade. Nesta seara o
melhor que se pode fazer é ser transparente e democrático. Falar
a verdade para a categoria e abrir as contas. O ambiente de
trabalho, a integração da equipe de trabalhadores e professores
sob a liderança de um diretor competente. Enfim, que cada escola
tenha os elementos pedagógicos necessários para que possam dar
boas aulas. Nada contra o giz e o quadro negro. Mas, os tempos
mudaram. Menino tem celular, tem computador em casa ou na lan
house e assim vai. O professor deve também se aperfeiçoar. Tudo
muda e muito rápido.
Incentivar o professor a se interiorizar ainda mais, pagando
diferenciadamente o adicional de difícil acesso. O que é justo.
Principalmente aos professores de educação física, matemática,
inglês, química. E sonho alto com a introdução da música como
alguma coisa extracurricular disponível. Só com bom salário
diferenciado poderemos ter educação de qualidade nas fronteiras
e nas cidades mais distantes.
O salário não é tudo. No entanto ele é um dos elementos
motivadores. Com salário baixo demais a rotatividade do quadro
de professores é muito grande. Não se para de fazer concurso e
se convocar gente. O custo é elevado. O prejuízo é grande. O
aluno que repete o ano dá prejuízo ao Estado. O aluno que evade
da escola dá prejuízo ao Estado. E a ele mesmo. O professor que
se demite por desmotivação também dá prejuízo ao Estado porque
recebeu investimento em preparação. A educação indígena deve ter
força-tarefa especialíssima.
Eu não quero ser governador de um Estado caótico e sem rumos
na educação. Porque sem nenhuma demagogia, eu mesmo sou um
produto de uma escola pública, de interior profundo no Estado do
Tocantins. Que só ensinava até a oitava série e depois tínhamos
que mudar de região para continuar os estudos. Esta escola
humilde me salvou. A escola boa abre a porta da esperança para
os jovens. Promove a igualdade entre todos. Principalmente se
for de tempo integral e educação integral.
O treinamento continuado dos professores é indispensável. O
pagamento salarial diferenciado pelo mérito e pelo desempenho.
Não tem como não entrar neste campo tão moderno e tão
universal. Quem trabalha melhor, tem melhor desempenho pode
ganhar mais do que o outro que não se aperfeiçoa. A gestão
democrática da escola, como a eleição do diretor. Inscrição
espontânea para quem preencha os requisitos. E se submeta a uma
prova teórica de avaliação. Tudo se fecha com a assinatura do
contrato de gestão com o Estado. O professor participando
efetivamente das discussões estimula a produção de serviços e
produtos educacionais.
Não sei se falei de tudo. Estão aí os meus pensamentos sobre
educação. Não concordo com o modelo de ensino médio rural. Ele é
distante da realidade do campo. Proporei um modelo intermediário
de escola de alternância. Ainda mais, não terei medo de ousar
para que escola se ajuste ao mundo contemporâneo. Que se una o
pedagógico e o curricular com o lúdico, o engraçado e o
espetacular. Que a mudança é um desejo de todos. Que se deve
iniciar logo para que não tardem a chegar os bons resultados. E
quando? Agora. A gente pode melhorar a educação pela nossa
própria aldeia.
A Secretaria de Educação é inegociável. Nada de jogo político
dentro dela. Nada de indicação de A, B ou C porque é amigo de
fulano e beltrano. Educação não é comitê eleitoral. Educação
deve ser gerida tecnicamente por gente competente.
RONDÔNIA – UM
NOVO CICLO INICIA
Ariquemes, 23 de maio de 2010
Confúcio Moura
Por mim mesmo, melhor profissão teria, se fosse garoto
propaganda de Rondônia. Assim como aquele careca do Bombril.
Basta vê-lo para lembrar de suas mil e uma utilidades. Assim
também sou eu. O meu discurso é de perene encantamento. Falo de
boca cheia sobre Rondônia, como se nascesse em mim uma força
demolidora contra o pessimismo.
Quem tem Rondônia como morada tem esperança no futuro. Quem
olha Rondônia de corpo e alma tem a explicação da própria razão
de viver. Porque este é o Estado que nos cabe inteiro. Que a
nossa pequena massa corpórea tem o espaço de folga e a imensidão
para os nossos pensamentos morarem. A nossa visão ainda é verde
e cortada por desenhos azuis dos nossos rios.
Como a beleza, em certos locais é tão chocante! A nossa
fronteira serena, nem pode imaginar que entre os dois lados do
mesmo rio vivem homens tão diferentes. Os brasileiros esquecidos
na margem de cá e os bolivianos desmerecidos do outro lado. E
eles se encontram. Entre brasileiros destemidos, quase não
vistos, duvidosos de cidadania, com regras próprias e leis da
natureza criaram o seu próprio mercado comum. A lei dos seus
próprios costumes, os tratados bilaterais de entendimentos, para
o jogo de bola, o furto da menina moça, o abate da tartaruga, a
reza do Divino Pai Eterno, mais a livre circulação de
mercadorias. Na fronteira de Rondônia com a Bolívia, o MERCOSUL
dá show de bola. A tarifa externa é zero. E tudo está liberado,
inclusive a circulação de pessoas e diplomas.
Muitos seringueiros nativos nascidos em Surpresa, ainda não
conhecem Guajará-Mirim. Dos mistérios da floresta tropical
entendem de tudo. Os índios vivem em suas aldeias aparentemente
sossegadas. Remam e pescam. Descem os rios para venderem bananas
e frutas da floresta. Todos eles são pobres de dinheiro. E
praticam o socialismo de trocas e vivências. E no mais a
fronteira é desguarnecida. Só os biguás vigiam-na.
O Rio Guaporé é como se fosse um fio telegráfico de Rondon.
Ele faz a integração de regiões. E nas suas margens formam-se
mundos especiais. A presença humana raleada. O Forte Príncipe
tem a cara do português colonizador. Os canhões apontando para
a curva pedregosa do rio. Nunca dispararam um tiro sequer.
Parecem que são armas e barões assinados para imortalizar os
Lusíadas. O Forte Príncipe protege Rondônia do mau olhado. E
todas as vozes surdas saem de suas frestas querendo ressuscitar
as suas glórias.
A Rondônia da beira do Rio Guaporé não é a mesma da BR-364. E
nem é a mesma de Santo Antonio, com seus quilombolas que marcam
naquele ponto, a memória negra do Brasil. A triste escravidão.
Os negros sucedem-se em gerações de sofrimentos. Com pouca ou
quase nada de liberdade e nem sabem ainda o que venha a ser
cidadania.
Assim é o Estado de Rondônia, meio torto e meio certo. A
língua é quase a mesma, mas, dá para entender o sotaque. O
inglês entrou forte na placa do comércio. E na linguagem do
computador. O otimismo é grande e a serenidade profunda. De tão
grande dá para ficar preocupado. De tão isolada não se comemora.
Só se fala de usina de energia. E se fala da caça da cotia. Duas
ou três grandes usinas em andamento e se prometem ainda mais
outras. Por aqui o número é gigantesco – bilhões. Enquanto as
pequenas ações são perenemente adiadas. O barco ribeirinho está
encalhado em Guajará-Mirim por falta de verbas. Constrói-se a
Nova Mutum. A cidade que mais parece uma Dubai. Enquanto Costa
Marques peleja para manter a saúde pública minimamente. E Jaci -
Paraná esperneia diante do seu aflitivo crescimento. As usinas
avançam galopantemente. Glória!
E eu mesmo fico orgulhoso com tudo isto. Dá vontade de bater
no peito e me dizer ainda o mais patriota dos brasileiros. Está
chegando a Copa do Mundo, Grande Deus nos dê a taça. Já passou o
carnaval. Grande Beija-Flor dos meus encantos, rebola mulata,
rebola a sua mestiçagem, o seu sexo da história. Beija-flor
traga no bico, uma gotícula do néctar daquela flor, a dulcíssima
flor da justiça para todos. Enquanto se produz energia,
produzem-se também injustiças, nada de compensação para Nova
Mamoré e nem para Guajará-Mirim, nem para os índios, nem para os
seringueiros, nem para os quilombolas, nada para Costa Marques.
Em compensação a mulata rebola, a gente gosta de ver. Vem o jogo
de bola e se esquece tudo. Nem ônibus para as escolas, nem
escolas para Surpresa.
Mesmo assim, Rondônia é bela. Tem a cara do povo brasileiro.
Tem cassiterita, tem barro e tem argila, tem madeira, tem
reserva. Tem soja de perder de vista, canavial em Cerejeiras,
girassol em Chupinguaia, urucum em Colorado. Colorau na sua
comida. Boiada no Estado inteiro, usinas no Rio Madeira, muito
sonho e esperança, tem de tudo. Só está faltando o essencial – O
PAC para a saúde. Outro PAC educação. O PAC para a segurança. Aí
sim, serei mais Ariquemes x Rolim
VIOLÊNCIA – A
NOSSA GUERRA CIVIL DE TODOS OS DIAS
Ariquemes, 16 de maio de 2010
Confúcio Moura
O Brasil vai bem para um lado, vai mal para outro, fica de
cima, debruço e virado. Alegre num dia, no outro também, nem
falo da Copa do Mundo, nem do frevo, do samba, carnaval
embalado. E lá vem a tristeza com a bala perdida, que foi
acertada na testa do outro, do furto, do roubo, do moço caído,
mortinho da silva, nem se viu morrer, nem sentiu a morte
embalada pelo crack da vida.
E todo dia morre dia, morre gente, de morte matada. Morre o
negro. Morre o jovem. Um branco de quando em vez. A negritude da
morte, vestida de capa de bruxa, voando sobre o nosso país
varonil. Estão soltas as bruxarias nas mortalhas sobre o povo
brasileiro. Pode vir de todo lado, do roubo do banco, do
seqüestro relâmpago, de dentro da cadeia, de fora dela também,
vem do morro, vem da praia, do boteco, da balada. A “balada” já
diz tudo. A matança pode vir de um sem número de motivos. Quase
sempre do quase nada, que é muito, que é tudo, porque um homem
que tomba, toda a humanidade tomba também.
O Brasil vai muito bem. Vai pra onde, meu Brasil? Vai subindo
a engrenagem, adeus dívida externa, adeus Belém do Pará, desce o
dólar, sobe a bolsa, me valha meu São Jorge querido, ajude-me a
domar o dragão da inflação. Aquiete-se aí sua danada, aquiete-se
aí senão o Banco Central sobe o juro. Aquiete-se aí no seu
canto. E tudo por aqui vai muito bem, farto crédito, classe
média subindo, enquanto isto a nossa guerra civil continua sem
nenhuma trégua.
É a violência, minha gente. A violência. É como se tivéssemos
aqui muitos brasis brasileiros. É a nossa guerra santa de nós
contra nós mesmos. Os nossos vários brasis lutando entre si numa
verdadeira guerra separatista. Os maragatos x farroupilhas x
canudos x mascates x guerrilha do Araguaia x sabinada, tudo que
é antigo, sem lei, sem ordem, sem sentido, volta agora,
ressuscitado numa contemporânea luta contra um abismo de lógica
e fundamento.
É o nosso mestiço matando o nosso mestiço. É cada um querendo
o seu pedaço de território, é o outro só querendo matar, tem
gente que nem quer saber, só gosta mesmo é de ver cair, cair o
morto e depois sair por aí limpando as mãos como se nada tivesse
acontecido. É a mais absoluta falta e agora me falta também a
palavra, a mais absoluta falta... talvez de alma, talvez de
amor, talvez de importância da própria vida.
E o Brasil melhora na sua economia. Melhora a nossa imagem
externa no mundo. Todo mundo com o celular no bolso. Todo mundo
no Orkut. O menino na lan house jogando o dia inteiro. Enquanto
isto a escola cai aos pedaços. Os professores morrem de medo dos
alunos. Os pais não querem nem saber – pondo a culpa sempre no
governo. E a gente fica sem saber por onde começar.
Por onde começar?
Por onde começar a se por ordem neste pedaço? Tem um perigo
muito grande é o de infelizmente, muito infelizmente mesmo, o
povo brasileiro acreditar que tudo tem que ser assim mesmo. Este
pensamento fatalista. Se infelizmente o povo brasileiro, em sua
maioria, tiver este pensamento de que todo mundo deve ser
esperto, tirar vantagem de tudo, fazer coisa errada e ser
perdoado, vistas grossas pra tudo. Aí é o fim do mundo. Podemos
até ficar com boa imagem lá fora, no Irã ou em Cuba, mas, feio
na foto aqui dentro de casa.
Vamos fazer um grande pacto – uma nova carta aos brasileiros –
e o artigo primeiro será a educação integral para todos. Artigo
segundo – enfrentar o crime sem medo e nem temor. De frente
mesmo. Tendo como lema principal – a justiça igual para todos.
Tirar dinheiro do arco da velha para educação. Tirar dinheiro
do pré-sal das almas para a educação. Tirar dinheiro de todos
os fundos dos poços para educação. De todas as contribuições
para a educação. E até que ela dê resultado claro a gente vai
agarrando no chifre da bagunça, tacando pimenta nos olhos da
bandidagem e se deve começar em casa, dando exemplo, na
repartição dando exemplo, na prefeitura, dando exemplo, no
governo e na presidência da república também. A austeridade e o
bom comportamento na vida cotidiana geram filhos.
E ainda tem o nosso bendito modelo prisional. Que é o máximo
do mau comportamento. Neste momento o Estado regride o infinito
de si próprio, o infinito pra baixo do pré-sal. E o pior dos
exemplos que se pode dar. O Brasil Inquisidor, de masmorras
medievais e que ainda finge que tudo deve ser assim mesmo. Tem
tanta tecnologia por aí, e o mundo todo vigiado eletronicamente,
o preso chipado, o preso multado, o preso recuperado, o preso
tratado, o preso alfabetizado, o preso capacitado, o preso
domiciliado, enfim, o preso punido, sentido, culpado. Mas, ao
menos ressocializado.
Para se combater a violência deve-se ter uma consciência
permanente com a paz.
MÃE EDUCADORA
Ariquemes 9 de maio de 2010
Confúcio Moura
Toda mãe é também uma educadora. E só a educação salva. Será
que não estou sendo muito materialista ao afirmar que só a
educação salva o homem? Tudo isto é louco demais, no entanto, a
gente pensa, fala, acerta, erra e termina ficando as coisas
muito por conta da filosofia. Que tudo pode ser verdade ou
mentira ao mesmo tempo.
Aqui na minha cabeça vou continuar pensando do mesmo jeito.
Que só a educação salva. E tem mais uma – vou resistir com este
pensamento. Nem que tenha que ficar sozinho no mundo na defesa
desta tese.
A criança ao nascer tem o seu cérebro zerado de informações.
Não tem nada dentro. A não ser as suas predisposições genéticas
que guardarão aptidões e possibilidades, mas, mesmo estas
predisposições podem ser afetadas pelo meio em que o menino for
criado. Aí a natureza desenvolverá nele mecanismos como o ataque
ou a fuga.
Hoje, é dia das Mães. Mais um dia para se comemorar e quando
se fala nelas, todos nós ficamos caçando jeito de agradá-las,
assim, meio constrangidos para escolher um presentinho que venha
conferir à mãe alguma coisa de gratidão. Eu mesmo comprei para a
minha - um pacote de chocolate. Creio que o chocolate vai
agradá-la por demasia. Porque o chocolate nos dá por alguns
minutos uma sensação plena de felicidade.
O cérebro do neném está vazio. A mãe está ali pegando no
batente: banho, fralda, peito, cantiga de ninar e muita coisa
mais. Ela vai falando, pegando, tocando, transferindo para o
filho todo o seu mundo de afeto ou desafeto. De amor ou desamor.
De felicidade ou infelicidade. De alegria ou de tristeza. E a
criança vai enchendo a sua cabecinha deste universo novo de
contatos mágicos. E vai guardando ali dentro dos seus miolinhos
tudo que acontece ao seu redor.
A mãe é a primeira e a mais importante professora. Ela
transfere o seu mundo para o mundo do futuro. O mundo em
formação. E quando o filho matricula-se no primeiro ano ele já
tem parte do mundo na sua cabeça, embora, não pareça, mas, já
tem traços fortes de personalidade, visíveis reações de defesa
própria, bons comportamentos sociais ou não. E daí pra frente
entra em cena a figura do professor convencional, que irá
trabalhar por módulos educativos, que poderão ser acrescentados,
aos conteúdos de vivências maternais. Mas, pobre professor
convencional, os seus módulos nunca irão substituir as bases
recebidas das famílias.
Não resta dúvida que a gente só pode dar aquilo que tem. Nem
mais e nem menos. Então, o mínimo que uma mãe pode dar ao seu
filho é afeto e carinho. Esta base afetiva é indispensável para
a formação de um novo homem, quando não muito rica em
conhecimentos fartos, ao menos seja recheado de amor. O amor é
muito barato e não depende de buscar numa universidade. O amor
pode ser simples e caseiro.
Pelo volume de gente que vi ontem na TV, enchendo mercados e
shopping centers Brasil afora, percebi que as mães cumpriram com
seus deveres primários, porque a cada ação corresponde a uma
reação igual e contrária (Newton), se o filho responde à mãe com
um presente é porque justamente ela é merecedora e fez
igualmente a sua parte.
Mas, os presídios estão cheios. Muitos jovens enchendo os
bares e inferninhos pelas madrugadas. No meu Cooper
“madrugatino” de sábado, vi de longe, dois jovens bêbedos
brigando à porta de um boteco, desferindo um contra o outro
golpe violento e impiedoso. Em casos como este, pode ter como
base, lá na primeira infância, os desmantelos de famílias
desestruturadas. Nem sempre, mas, pode ser.
As mães não são culpadas por todos os pecados do mundo. Porque
também são de carne e osso. Além de se oferecerem inteiras à
natureza, elas também tem o sagrado dever da formação exclusiva
dos seus filhos, por dever de ofício. É uma carga grande demais
– a de ser a responsável pelo destino da humanidade inteira.
Só a educação salva. Ela é a chave que abre a porta secreta
do admirável mundo novo. Entre a educação materna e a educação
formal, eu fico com a materna. Mesmo com todas as carências –
são os pais, mais ainda as mães que incutem nos seus filhos as
bases, os valores, os princípios básicos para se viver bem em
sociedade. E nada melhor do que ensinar a partir do próprio
exemplo de vida.
Mãe – a mais importante professora.
CONVERSA COM UM
VELHO COMUNISTA
Ariquemes, 2 de maio de 2010
Confúcio Moura
Olha gente! Para lhe contar a verdade eu não sei mais o que
sou. Se capitalista selvagem ou socialista de carteirinha.
Porque cada dia mais me decepciono com a ideologia, com
princípios estáticos de se pensar e agir. No entanto, a bem da
verdade, tem gente que parece que nasce e já é geneticamente
modificado. Um gene para o esquerdismo, para a critica histórica
aos usos e costumes e todas estas coisas de insubordinação
contra princípios vigentes.
São os desregrados. Tanto os direitistas como os esquerdistas
se equiparam, porque os dois tem tendências totalitárias e
iguais em crueldade. E o ciclo recomeça no marco zero da
história da humanidade.
Estou falando tudo isto, pra dizer a vocês que me reencontrei
com Clodomir Santos de Morais, velho sociólogo brasileiro,
professor emérito de várias universidades. Que tem história pra
contar e mais de trinta livros escritos. Ele tinha a solução
pronta e acabada para as nossas mazelas sociais e econômicas. A
inspiração da sua luta era Cuba e a União Soviética. Deixou o
seu Estado de Pernambuco para se adentrar ao sertão profundo
porque estava convencido que o poder se ganha pela luta armada
entre a classe dos explorados contra a burguesia. A sua meta era
preparar um Exército de sertanejos, tal qual Antonio Conselheiro
em Canudos. Com mais outros jovens igualmente comunistas,
foram-se Brasil afora se acampar numa operação bem trabalhada,
que ficou conhecida como As Ligas Camponesas. Base e inspiração
do atual MST.
Clodomir foi para o Rio da Conceição nos confins de Goiás, ali
beirando o Brasil profundo, perto do Maranhão e um pé no Piauí e
o nariz na Bahia. E passou a peregrinar a sua causa numa
perfeita conquista do sertanejo que não sabia fazer um “O” com
um copo. Era assim que ele queria amansar este homem selvagem,
segundo Euclides da Cunha “o sertanejo é antes de tudo um
forte”, com este presságio de incutimento ideológico, pelas
armas, tornaria o Brasil um país comunista.
Verdes mares! De mocós e preás, de lajedos de calcário, de
rios limpos, lindos, buritizais perfilados em tropas de guerra,
emas pernaltas a sumir das vistas nas veredas infinitas,
entremeando os Estados do fim do mundo. E o homem sertanejo
crente na sorte, que dormia numa banda de couro, sem
travesseiro, que comia coco catolé com pedaço de rapadura, mais
alguma coisa de rapa de buriti, de vez em quando tirava no
tipiti a massa da mandioca brava para fazer farinha de puba.
Aquele homem tosco e quase primitivo, não conhecia nada além,
portanto, tudo aquilo era um mar de rosas. E talvez fosse de
verdade um mar de rosas no socialismo por baixo, pela miséria
rés do chão e quem sabe uma felicidade extremada tal a sua
profunda natureza. A digna felicidade dos ignorantes. Nada
sabiam de classes sociais e nem tinham inveja de nada e ainda
pior das relações de exploração entre o capital e o trabalho.
E Clodomir e companheiros, estavam ali para mudarem a ordem do
pensamento do sertanejo, bugre selvagem, petrificado na
ignorância e amansado pelo catolicismo. Mesmo assim, os caboclos
faziam jejuns para purgarem pecados, embora todos fossem
desnutridos, comedores de torrões de barro e cacos de telhas,
carentes de ferro, padecedores de todas as inclemências sociais.
Nunca tinham escovado os dentes com pasta, a não ser com cinza e
tiras de fumo de rolo.
E depois em l964 veio a bendita Revolução de 31 de março, que
meteu o pau na esquerda brasileira e o glorioso Exército
bateu-se atrás de Clodomir Santos de Morais e seus colegas.
Muitos deles foram metralhados e outros caíram no Rio Manuel
Alves e nadaram na noite e sumiram no mundo que nem as emas dos
ermos gerais. Salvaram-se pela graça bendita do Divino Pai
Eterno. Taí seus ateus, na hora da dificuldade vocês rezam pra
todos os santos terem piedade e fazem promessas, para se
livrarem das balas dos fuzis Mauser 1909.
Pois bem, estas reminiscências me fazem bem, e sentado na sala
do Clodomir em Porto Velho, semana passada ele do alto da sua
sabedoria e dos seus mais de oitenta anos bem vividos e
lembrados, não se cansa agora de falar que a salvação das
classes oprimidas – só acontecerá pela Teoria da Organização com
laboratórios e técnica de preparação massiva. E tudo isto se
deve fazer sem nenhuma ideologia, apenas fincada na base da
formação da consciência crítica. Porque a solução de problemas
econômicos está ao alcance dos olhos e bem perto de suas
moradas.
Veja bem que o homem não parou de guerrear, no entanto,
agora, maduro e de profundo conhecimento ao invés de arma em
punho – a luta agora é pela educação como instrumento poderoso
de salvação nacional.
UM ESTADO DE
VERDADE
Ariquemes, 25 de abril de 2010
Confúcio Moura
Uns mais e outros menos, mas, a formação dos Estados
brasileiros sempre teve origem semelhante. A terra. O colono
aventureiro vai longe atrás de um pedaço de terra. Talvez o
homem tenha este sentimento primitivo, uma crença, quem sabe, de
que a terra seja à base de tudo. O sentimento de posse. Vem da
própria formação econômica do povo brasileiro, onde o
latifúndio, as sesmarias, sítios, chácaras e fazendas faziam
parte do poderio das colônias. O patronato rural.
Quem tinha a terra também tinha o escravo. E por aí começou a
desenfreada corrida de todas as classes sociais brasileiras pela
terra, ao longo da História do Brasil pela busca de poder e
glória pela posse da terra. É um sentimento forte, consciente ou
não que nos atravessa ao meio pelas gerações. E assim aconteceu
com Rondônia também. Com o Mato Grosso, Tocantins, Paraná e
quase todos. Raras exceções fora desta base para os Estados
mineradores.
Rondônia passou de Território Federal à Estado, com o uma
anomalia de parto – o Governo Federal esqueceu-se de transferir
as terras para o seu domínio. O Estado é Estado, mas, não é
senhor de suas terras. Quem manda nelas, ainda é o Governo
Federal. Até mesmo vários municípios ainda não tem o domínio de
sua territorialidade. Então quer dizer que o Estado não existe.
Ou existe, mas, não manda. E por aí se perde o sentido de Estado
de verdade, um ente federado e autônomo.
Sendo a terra o princípio básico de tudo, até mesmo da
autoridade, termina sendo que Rondônia é ainda um Estado coxo.
Manquitola na sua toada de ser um quase. Continua a teoria da
dependência, um Estado que vai andando com as pernas de outro.
Quer ir para um lado e as pernas vão para o outro. Pensa de um
jeito e termina fazendo diferente, porque não tem pernas suas.
Mesmo assim vai esturrando um poder que não tem. No fundo, o
umbigo ainda está agarrado ao INCRA.
Rondônia é o Estado do INCRA. Então vai mal, meu irmão, muito
mal. Porque o INCRA vive um momento muito especial – de tanto
crescer, ficou tão pesado e não anda mais. O INCRA de hoje é um
obeso mórbido. Come, come, come e não agüenta mais andar. Mesmo
assim, ficam os municípios a cada dia mandando ofícios, correndo
atrás dele, o Estado querendo suas terras, e ele (o INCRA), vai
engolindo todo mundo, na sua fome avara e tudo vai virando
gordura. Não decide. E como não decidir é ruim. E como a
indiferença dói. Que chega, até mesmo, ser humilhante.
A GRANDEZA DE
NADA SER
Ariquemes, 18 de abril de 2010
Confúcio Moura
Eu tenho mania de
escrever diários. Diários dos meus dias inteiros, quem sabe não
retorno, com esta atitude, a minha adolescência? Postar sonhos
no papel e ainda me pergunto, a quem interessa a minha rotina?
Talvez as traças ou mais tarde escrever algum livro de memória,
querendo com isto me tornar um eterno provinciano que não queira
morrer por completo.
E no dia 26 de janeiro
de 2009, fui lá buscar alguma coisa de diferente que tenha
escrito no bendito diário e achei este trecho:
“Mais um dia. Este dia
tem nome de segunda-feira. Já se sai de casa sabendo que o dia
seria cheio. Quem criou os dias da semana, separando um do
outro, foi um grande cara. De tão grande invenção o mundo
inteiro o segue. O que é que vou deixar para ser lembrado? Tenho
pensado nisto. Não vejo nada à vista. O que penso todo mundo
pensa. O que sei todo mundo sabe. O que faço todo mundo faz.
Serei um anônimo.
Ainda bem. Um anônimo.
Pra que melhor do que ser um anônimo? Um ninguém. Um vácuo.
Serei o que sempre fui. Antes de ser concebido o que eu era?
Nada. E já era muito em não ser nada ou um quase nada. Antes de
ser concebido não tinha nenhum valor porque não existia. Não
vazia falta. Que bom! E lá na frente vou me encontrar com o meu
nada.
Que beleza!
Quero dar um abraço bem
apertado no meu nada. E dizer pra ele: que alegria, voltar a não
te ver, meu nada amigo. É assim. Mais alguma coisa. Gases na
atmosfera. Já pensou você em ser gás? Num botijão ou na
atmosfera? Servir ao menos para encher papo-de-anjo? Que glória.
Ser gás é muito importante, porque os gases ocupam o espaço
inteiro. Os gases querem o mundo inteiro só pra eles. Ficarei
muito feliz se alguma raiz amiga encostar-se aos meus escassos
restos e sorver algumas moléculas cálcio ou ferro.
Um nitrogênio.
E depois ele subir
pelas veias da planta e se ajeitar na flor, no fruto e mais
tarde, um dia, ser comido de sobremesa. Que bom voltar a navegar
num corpo humano. Quentinho e depois virar urina ou fezes.
Legallllllllllllllllllllll.
Isto aqui é só para
aquecer. Um alongamento, para se contar o trivial do dia. Estas
coisas que são repetidas. Pouco de novidade. Mas, que gosto de
repetir. Sou mediano. Inteligência entre o normal e fronteiriço.
Então, só aprendo o que posso repetir. Mais nada. “
O bicho homem sempre
teve muito pavor da morte. Enquanto uma mosca morre tão
sutilmente, quase sempre não chorada por ninguém, nem por outras
moscas, enquanto o homem quer a imortalidade de uma estátua e de
fotografias que se eternizem. Até mesmo de mausoléus fantásticos
e pirâmides milenares. Ainda não tive a glória de encontrar
estátua de uma mosca. Como seria bonito ter uma praça com o
nome de barata, de pulga, escorpião, lagartixa. Viventes nunca
lembrados numa festa humana de gala. Acredito que seja pelo
desprezo que sofrem que único jeito de serem percebidas, seja
pelas incômodas picadas ou repelência de suas formas.
Estou voando nesta
madrugada de domingo, enquanto a cidade inteira dorme, ainda não
sei se o que escrevo é filosofia ou alguma coisa que se mistura
com a esquizofrenia, certo ou errado não posso afirmar que seja
uma crônica domingueira, que narre o acontecimento vivido em
algum dia, foge e muito do fato concreto. Ah! Meu amigo, fato
concreto, melhor ouvir Omara Portuondo cantando “Talvez”.
Ediane Maria Moreira não vou lhe dizer Adeus. Vou guardar o
brilho dos seus olhos, o seu sorriso infinito e por todos os
seus sonhos nos meus balões de ensaios. Estou olhando o seu
rosto sereno, vou guardá-lo dentro de mim. O que fazer com a sua
juventude? É por isto que você se eternizará, sempre linda, para
sempre ser lembrada assim. A sua juventude marcará a história de
Rondônia, para que tudo seja mais rápido porque você tinha
pressa. Ronde os nossos céus úmidos do Vale do Jamari como uma
musa sagrada. E que o Rio Crespo e fluido guarde-a na sua
eternidade.
UM APERTO DE MÃO
NO CONE SUL
Ariquemes, 11 de abril de 2010
Confúcio Moura
Acabei de chegar do Cone Sul.
Uai, o que é Cone Sul?
Será que é um lugar afunilado que nem o Bico do Papagaio,
Ponta do Abunã, Cunha do Marechal ou Estreito de Magalhães?
Não é não, meu caríssimo, é o cone territorial em Rondônia que
fica nas divisas com o Mato Grosso e a Bolívia, juntando Vilhena
às cidades próximas.
Você bem sabe como é que é. Quem se mete na lida da política
tem que por a cara na rua. Por mais que a vida fique moderna,
tudo bem, mas, nada substitui o contato com o povo. E tem que
ser assim mesmo. E sempre foi do mesmo jeito. O homem na rua
como num sonho deslumbrante. Mirando o seu infinito ao alcance
dos seus olhos.
Bem que cada rondoniense deveria conhecer para entender o
outro lado de Rondônia. Um lado que é Norte e que também não é.
Que pode ser Centro-Oeste, porque por ali tudo é bem diferente.
E natureza brinca com a gente. E vai compondo uma paisagem
mistificada com todas as caras que tem o Brasil. E, de repente
vem o frio, depois um vento que corta a carne, mais tarde
esquenta de novo, surpreendentemente aparece um cerrado savanoso
que entremeia capões de floresta tropical entabocada.
Não é fácil, meu amigo. Não é fácil. É sebo na canela, botina
“Zebu” no pé, sorriso no lábio, sempre e o insubstituível
contato com as pessoas. O aperto de mão. Até parece uma
deslavada demagogia, pensava assim, hoje, mudei de idéia, acho
necessário o aperto de mão. Tem aperto de mão inesquecível. Um
por ser agradável mesmo. Outro por ser dolorido. E mais outro,
que é visivelmente indesejável.
Moitas de mata são rodeadas por lavouras de soja. Um canavial
gigante em Cerejeiras. Breve uma usina de álcool. O gado
leiteiro tropicando nas montanhas de Colorado do Oeste. O urucum
rutilante que nem sangue bordeja o céu. Sigo para Cabixi, o
carro geme na subida da serra. Vai-se chegando pertinho do céu.
Do alto se olha o mundo afundado nos baixadões. O tremeluzir de
curvas construídas pelos ventos. Águas dos igarapés serpenteando
pelos caminhos do menor esforço.
Quando não havia televisão e nem rádio, as campanhas eram
feitas simplesmente nas ruas. Duas coisas jamais poderiam faltar
– foguetes e comícios. Hoje em dia, não são mais importantes
porque a televisão é o meio mais fácil de se conversar com o
eleitor. A Internet do mesmo jeito. O foguete ajuda a acordar o
povo, como o sino da igreja que chama o povo pra missa. Depois
do foguete vem a impertinente pergunta – o que é que tem na
cidade? Quem chegou por aí?
É manhã fria em Pimenteiras. O Rio Guaporé está calmo. Descem
troncos arrancados das margens. A água treme finamente, como um
lençol escuro soprado, ondulações nascem e se perdem enquanto
outras vem atrás. O capim canarana esconde os pesqueiros
naturais. A cidade imobilizada pelo tempo assiste o passar das
gerações. A Reserva Estadual de Corumbiara oculta a imortalidade
do lugar. Tanta é a paz que chega a incomodar.
O comício é ponto mais alto, hoje fraquejado, mas,
maravilhoso, porque é o candidato e o povo, cara a cara. E, ele
lá em cima, de microfone à mão, expressando de maneira eloqüente
toda a sua verbalidade, gestos, fisionomia do corpo e da face, o
tom de voz, o próprio sangue vertendo energia. É arte da
retórica canonizada por Cícero e Demóstenes. É a expressão
máxima de democracia direta. O comício é lindo. Pena que perdeu
moral com o tempo. Hoje, é a TV, o estúdio gelado, mão de pó no
rosto, o fala, repete e corta ou apaga, até que fique tudo bom,
para mais tarde chegar à sala do cidadão.
Quanto mais se entra no Cone Sul mais se fica perto do mesmo
lugar. Porque as cidades se grudam na mesma intimidade da
geografia. E cada feição compõe um cenário extraordinário, a mão
de Deus de um lado e a do homem do outro, plantando o que se
come e tingindo o que se sonha.
O aperto de mão é alguma coisa íntima. Ali as mãos se grudam
por alguns segundos. A fala, o brilho dos olhos, o sorriso, a
primeira impressão que se deixa, um curtíssimo elogio sobre a
casa, a cidade, a aparência da pessoa e vai-se embora, seguindo
a via-sacra dos contatos corpo-a-corpo. Era assim que Getúlio
Vargas fazia campanha. JK também. Jânio Quadros. O mundo
inteiro.
Nada é mais saudável para a democracia do que o discurso. E
todo este encantamento do Cone Sul, dos segredos pedregosos das
campanhas, da energia que se busca no misterioso do olhar do
povo. E no mais é a convicção de que tudo irá melhorar.
O SEU TETO É O
CÉU ESTRELADO
Ariquemes, 4 de abril de 2010
Confúcio Moura
Hoje, vou contar pra vocês, a história do “homem do Rey do
Peixe”. Cada vez que viajo à Porto Velho, quando atravesso a
ponte do Rio Preto, fico logo apreensivo para saber se ele ainda
está ali. Vou andando atento, bem perto da Colônia de
Pescadores, colado ao acostamento da BR-364 vive um homem, que
se apossou de um pedaço de terra mínimo, talvez do tamanho de
uma sepultura. Não sei se ele é homem, quase-homem, um bicho do
mato ou quem sabe pensa que não é nada, ou pode ser o próprio
vento.
Um varote fincado no chão, uma quase bandeira de saco
plástico, é o seu ponto de referência no mundo. Quem sabe pra
ele é o número da sua moradia, que não existe. Este é o homem
especial que encara o universo de frente, sem proteção, quem
sabe querendo regredir ou avançar aos tempos do homem primitivo!
Quem sabe querendo ser super-homem. Estar ao relento absoluto
assusta. Ele se ajeitou ali, como uma ave faz o ninho, no
acostamento ao meio do capinzal. O socado no chão pelo pisoteio
natural, ao relento de sol, chuva e vento, sobre tarimba mínima,
lona clara por cima, sem armação nenhuma. E o tempo vai
passando, quase um ano que vive ali, recebendo o esturro de
carretas, caminhões, ônibus.
Este é o super-homem que não quis o abrigo de uma casa. Nem
sombra de uma fruteira. Nem pedra. Nem barranco. Preferiu ter o
céu absoluto como teto, quem sabe orgulhoso, cansou dos limites
das janelas e portas e optou para ter gananciosamente a
amplitude da sua visão sem limite. O céu estrelado na noite. O
sol na plenitude de dia.
Basta a gente olhar a natureza para se aprender. Também olhar
o homem com seu multicolorido jeito de ser. Porque o homem, a
sua cabeça, o jeito particular de cada um, terminar por ser, o
homem é uma aula. Nunca se aprende tudo dele. O homem é um
animal incompreensível. Quem me dera dormir sob um céu
estrelado!
O mais incrível de tudo é o pensamento, que rola uma fita que
não tem fim, o pensamento escorrega do seu jeito, o cérebro vai
pensando até mesmo quando não se quer pensar em nada. Através
dele, o homem ajeita-se nas suas convenções e vai classificando
cada um de nós entre o mediano à loucura extrema.
Basta olhar no entorno de nós mesmos, para se ver nas cidades
homens, mulheres e crianças vivendo nas ruas. São os mendigos.
Os pés-inchados. Os drogados. Os miseráveis. Se mergulharmos nos
seus mundos, quase vazios de posses, veremos um leque de motivos
que oscilam da pobreza absoluta aos vícios mais dominadores.
Quem sabe todos não tenham se cansando de esperar a felicidade?
Como a felicidade demora muito, eles tem pressa e seguem em
busca dela pelos mais absurdos caminhos. Vão-se os andarilhos
pelas estradas em busca da terra e de ilusões. Cansados de
tantos outonos de enorme aridez, vão-se todos em busca de
primaveras floridas. Vão-se os retirantes, cortados ao meio,
querendo ir e querendo ficar. Mas, vão-se todos despedaçados.
Nós todos que fomos adestrados ficamos aqui. Os amansados
ficaram aqui. Em nossos mundos sem estrelas só nossas e ficamos
aqui previsivelmente assalariados.
Kafka descreveu o homem que virou barata, uma verdadeira
metamorfose. O homem do “Rey do Peixe” não é mais homem, ao
menos este homem convencional, de cabeça, tronco e membros. Este
outro homem diferente que tem malas, quartos, cozinhas, que se
preocupa com o supermercado, com educação dos filhos. O homem do
“Rey do Peixe” não tem nada. A tenda mínima, os mosquitos como
amigos, o verde piso do capim, o sol ardente do meio dia, a
frota de todos os veículos que passam, o barulho dos motores que
não se lhe assusta, o lago do Jamari que empresta a água. E os
grãos de soja caídos na estrada que ele cata um a um
criteriosamente.
Não tem fogão. Não toma café. De quando em vez alguém lhe
joga um pacote de bolacha, nem para com medo do homem
metamorfoseado, quem sabe homem e cobra, homem e tatu, homem e
lagarto. A vizinhança aprendeu a conviver com ele, a distância
de mil metros, a respeitar a sua preferência, que não incomoda a
ninguém. Ele tira da beira da estrada o de que necessita, nada
plantado convencionalmente, o mínimo do mínimo para continuar a
viver.
Ele carrega no próprio corpo tudo que lhe pertence, incluindo
o próprio corpo. Se morrer ali não dará trabalho nenhum à
justiça na hora de fazer o seu inventário. Porque o que ele tem
ele levará consigo mesmo para o reencontro com a terra mãe. Caso
queira mudar de moradia, basta levantar e sair andando que o seu
patrimônio o acompanhará sem grandes arrumações.
Infelizmente não posso descrever toda a rotina do “homem do
Rey do Peixe”. Porque nunca parei ali para conversar com ele.
Creio que por medo de algo que me parece pavoroso. Creio que por
indiferença ao lagarto da beira da estrada. Talvez pela maneira
agressiva que conduz a sua própria vida.
Uma agressividade que foge a este mundo limitado de nossas
visões.
“Não há servo e mendigo maior
que eu, não me tema, portanto, pois, o pior que posso fazer é
servir ou pedir”.
SOMBRA E CANTO DE
PASSARINHO
Ariquemes, 28 de março de 2010
Confúcio Moura
Ainda não brotou o sol na copa da mangueira. Os passarinhos
ligaram suas flautas em alvorada para acordarem o domingo. Enquanto
tudo parece ainda sonolento, tem aqueles que animados pela noite, sons
estridentes dos seus veículos, retornam dos bailes mecânicos.
Só de ouvir os passarinhos e como tem pássaros na cidade, eu
me desperto por completo, em deslumbramento. Quem sabe são atraídos
pela comida farta jogada fora, caídas nas ruas e perto de mercados? A
musicalidade expressada por vários deles, de ouvido em prumo, dá para
se compor uma sinfonia incrivelmente bela.
Ainda mais eles virão se em cada quintal se deixar uma árvore
frutífera. A mangueira, além de boa sombra, bons frutos, na safra ou
fora dela atrai os periquitos e muitos outros passarinhos cantadores.
O mamão de fino cheiro puxa para suas copas até cauteloso tucano.
Fora os bem-te-vis, joão-de-barro e sabiás.
Quando se planta árvore na cidade ela se humaniza ainda mais.
Ela se aproxima de uma amostra completa do universo. Porque o homem
tem necessidade de estar um junto do outro. E por mais artificial que
seja uma cidade a gente gosta de estar dentro de um paraíso. Quem é
que não sonha com um sossego. Viver no meio de frutas, sombras e
passarinhos?
E este despertar lento da madrugada, ao se abrir os olhos,
ainda torporoso, ter-se a impressão de sonho. Sonho de campos
floridos, de revoadas, de garças brancas, campos trigueiros, de
girassóis, de uma roça de arroz cacheada. Sonho romântico de se ver ao
longe, o príncipe (ou princesa) encantado, vindo de braços abertos ao
seu encontro, enquanto os periquitos assanham os seus alaridos. Depois
de tudo a decepcionante realidade de rochas quentes.
A cidade, ainda mais uma cidade amazônica, não se justifica
ser despetalada por completo. Uma cidade tropical, quente e úmida,
solta na lisura do asfalto, quando nem aragem se esvai do chão. Assim
sendo, cada vez mais, torna-se uma cidade incompreensível e
injustificada, que por si só, reduzirá o bem-estar dos vivos e que
pode se tornar, só por isto, uma cidade agressiva e violenta.
A cidade plantada de verde colossal, florida com suas flores
de floresta, com suas águas nascidas e perenes, com seus riachos,
buracões, grotas vestidas de natureza tornar-se-á um verdadeiro
paraíso encantado. Nem precisaria trazer de volta aos nossos dias os
paisagistas renomados. Tem-se as mãos cheias por aqui também. Basta
visitar mateiros com Raimundo do Mutirão. Ou Bernardo lá de Costa
Marques. Que sem cerimônias implantarão modelos de bosques,
enfileirados de árvores coloridas e dezenas ingazeiros nas beiradas
dos igarapés.
O sol de ouro cobriu a mangueira. E tudo ficou bem claro
agora. Ainda não ouvi nenhum ronco de automóvel. Os bichos de
Ariquemes, mesmo domingo, espalharam-se na cidade. Os raios retinem
nos telhados pintados como se fossem espelhos. Refletem-se em vários
sentidos, cegam-me transitoriamente, nem posso olhar para não exagerar
a minha percepção no seu limite extremo.
Como se sabe, ainda mais agora, nada se deve fazer paisagismo
sem um projeto técnico. Antes, quando menino, não era assim, o próprio
povo plantava árvore no quintal. Em todos os quintais havia
mangueiras. Jaqueiras. Bananeiras. Goiabeiras. Fruta-pão.
Jabuticabeira. Jambo. Os quintais eram verdadeiros parques de
diversões. Crianças subindo nos troncos. Balanços atados aos galhos.
Poleiros de galinhas.
No asfalto ao meio dia a temperatura pode chegar a 45 graus
Celsius. E este calor entra nas casas. Desassossega a criançada.
Recém- nascido irrita-se num choro inexplicável. Idoso desidrata.
Jovens não conseguem estudar. Aumenta a conta de luz. Ainda há mais a
luz e calor dentro de casa. O fogão, o barulho do liquidificador, o
ventilador, a TV ligado no máximo volume. A casa torna-se um lugar de
brigas e extremamente irritante. Agonizante.
Sentar-se à porta da rua, à sombra da árvore, fim de tarde.
Conversa alegre de vizinhança. As crianças correm e brincam ao alcance
do olhar. É um momento inconfessável de grandeza comunitária. A
família se acalma inteira. E a cidade passa a ser de humanos. Não de
ETs. Não de lobisomens fantásticos. Quem não se atinar a estes
detalhes jamais poderá conhecer as reações do seu povo. A carga de
tensões, de estresse injustificado, de brigas, de adoecimentos, com
certeza, em grande parte, deve-se ao desmantelo e descuido com
princípios da humanizada convivência.
A VIDA POR SI SÓ SE
JUSTIFICA
Ariquemes, 21 de março de 2010
Confúcio Moura
Basta olhar a história para se ver que a nossa vida é um
simples estalo de dedos. Há cem anos Nilo Peçanha governava o Brasil,
logo a seguir foi a vez de Hermes da Fonseca. E o homem aventureiro
travava a maior luta para construir a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré.
Meu avô Francisco Moura viveu aquele momento. Minha tia Izaura era
menina de colo. Depois cresceu, envelheceu e morreu.
Nada é para sempre. Ainda mais a vida. Que é curta. O que se
pode deixar ou não deixar é uma questão de ponto de vista. Mas, todo
mundo deixa alguma coisa, se não dinheiro e fama, ao menos o sangue
pode ficar para o testemunho do que se foi. O filho ou o neto é pedaço
de sua própria vida. E é por isso que digo, para mim mesmo, quem tem
filho não morre nunca. Porque a genética passa, quando filho anda, um
pedaço da sua geração também anda.
Dias atrás vi uma reportagem sobre os índios do Xingu. Quando
um filho nasce são plantados cinqüenta pés de pequizeiro pra ele. Por
isto que estes índios são importantes para nos dar lições – a de
manejar a floresta para as futuras gerações. Cada filho recebe apenas
cinqüenta pés de pequis de herança dos seus ancestrais.
Eu tenho lido sobre a história das civilizações. E vejo que o
poder político é pequeno e transitório, mas que se deve trabalhar
muito para deixar algo imorredouro, como os pequizeiros dos cerrados.
O Império Romano foi importante. Conquistou Europa, Ásia e África.
Cada imperador, por mais que tivesse poder, foi tudo muito rápido, em
torno de vinte anos para cada um deles. O homem passa e fica a obra.
De repente pode-se ter a impressão de estar criando algo novo, engano,
quase tudo já foi pensado e experimentado no passado.
É extraordinário nascer. Nem sabe você quanto se tem que
agradecer. Raríssimo a nossa vida. Um acaso do acaso. Milhões de
espermatozóides viajando no corpo da mãe, por dentro, subindo, milhões
de verdades subindo e descendo. Apenas um deles, um só, consegue
chegar ao alvo. Penetra no óvulo e dá motivo para você nascer e viver.
E os outros, milhões deles, que poderiam também, se fosse o caso,
gerar outro ser, não conseguem e são descartados simplesmente.
A vida também é descartada. A natureza faz isto sem a menor
piedade. A natureza pode fazer, mas, você não. Você e eu temos que
simplesmente viver. Admirar a vida. Agradecer por este momento. E
olhar tudo em volta e dizer – “como a vida é maravilhosa”. E depois
ralar na dureza do seu próprio dia. Ralar para sobreviver.
Não se pode banalizar a vida. Porque ela é um bem precioso. A
vida é bela e rara e extraordinária. Quando vejo um camarada encher a
cara de cachaça, correr em alta velocidade e sem capacete, brigar por
qualquer motivo, sacar revólver e atirar no outro, quando vejo jovem
usar crack, maconha, cigarro, cocaína e se desfazer completamente,
puxa vida, fico triste pra chuchu.
Há cem anos Nilo Peçanha governou o Brasil. Depois veio Hermes
da Fonseca. Ninguém se lembra deles. E faz pouco tempo. Só cem anos. E
você mesmo, aí, não se lembra de Nilo e nem de Hermes. Talvez nem
tenha ouvido falar. Talvez de Rui Barbosa. Rui perdeu a eleição para
Hermes da Fonseca. O povo chorou copiosamente. Não adiantou nada.
Hermes foi o Presidente. Não existe quase ganhou.
Há cem anos o Brasil se arrastava lento pela consolidação do
princípio republicano. Quem mandava no país era o café com leite.
Minas Gerais e São Paulo. Quando não era um que estava na Presidência,
ano seguinte viria a sua vez.
Os reis governam e passam. Os imperadores romanos passaram em
filas pela nossa história. Os gregos filosofaram profundamente.
Encheram prateleiras de livros. Sendo que até hoje a Grécia ainda não
se entende. Ela que foi nobre berço de um esplendor, não passa hoje de
país problemático, aturdido por crise econômica que ameaça a relação
do bloco continental do euro.
Tudo é passageiro. Só a vida interessa. Não basta a fama, nem
a riqueza, nem o poder. O que é muito, por natureza, é a glória de
viver. A vida com liberdade. Então, meu caro e dileto irmão, vamos
viver a nossa vida com o maior bem possível e deixe para os seus
filhos ao menos cinqüenta pés de pequizeiros. O que já é muito.
UMA SALADA MISTA DE
PALAVRAS
Ariquemes, 14 de março de 2010
Confúcio Moura
Hoje, a minha crônica, nada mais é do que uma sopa de
letrinhas. Coisa mais extraordinária que o homem criou foi o alfabeto.
As letras de A até Z. Fantástico! Como se pode dizer tudo com estas
letras? O alfabeto é um oceano, um céu estrelado, uma floresta de
complexidades.
Da mesma forma o pensamento. A ideologia política. As crenças,
as religiões. A preferência pelos times de futebol ou quaisquer outras
modalidades esportivas. Até hoje eu não sei porque sou flamenguista.
Ninguém nunca me pediu para ser Flamengo. Nem porque sou do PMDB.
A política tem uma linguagem especial. O conceito de amizade
nela tem uma lógica perversa. Amigo mesmo, amigo de verdade,
amigo-amigo, posso dizer que não existe. E se existe é uma exceção.
Raríssima. Contente-se com “conhecido”, o que já é muito.
Tem hora que fico olhando para as nuvens, sem entender a real
necessidade, o fundamento exato de se ter no mundo tantos idiomas
diferentes. Países pequenos, encostados uns nos outros, separados por
rios, montanhas, linhas imaginárias, tênues separações. No entanto, de
um lado e outro, tem mundos adversamente distintos, por idiomas,
costumes, regimes políticos, formas de governos, gostos e
preferências, culinárias especiais.
Olha gente, faz tempo que estou dentro da política. Gosto de
ler, de fuçar coisas, da mesma forma considero-me um ignorante, quando
mergulho no mundo das ideologias. Fico admirado com as expressões
comuns – de esquerda e de direita. De progressistas e conservadores.
De trabalhadores e patrões. Poderosos e oprimidos. É barra pesada ser
um extremista, de qualquer que seja o lado. Não é fácil sustentar
estes princípios por toda a existência, porque de cada lado, tem-se
visto que nem um e nem outro são garantidores do bem-estar e da
felicidade dos povos.
As letras se juntam, aos gostos de cada um, e vão saindo
palavras e frases, com suas respectivas sonoridades, que vão
retratando as subjetividades das pessoas, os seus próprios interiores,
desejos e ideais. Todos estes escritos vão contando as histórias dos
tempos e dos povos que vão passando enfileirados pela história humana.
E nada é novo. E tudo já foi pensando. E tudo já foi sentido. Muita
coisa profetizada. E os povos se isolam em suas identidades e jamais
aceitam submeterem-se a domínios externos. Este sentimento de terra,
de origem são extremamente fortes.
A ideologia parece que é genética. Muito difícil de ser
mudada. Como as religiões e os deuses. Capitalismo x socialismo. Está
aí a origem de guerras e de conflitos.. Nada é exato e perfeito. Eu,
como um ser disforme, já fui de tudo, uma vira-folha assumido, vejo e
sinto que hoje sou muito mais do que um simplesmente nada. Dentro de
mim tem o socialista assumido e o capitalismo declarado. Giro como um
catavento para todos os meus extremos, querendo entender a sabedoria
dos radicais. Admiráveis radicais, que sustentam por todas as suas
vidas pontos de vistas inabaláveis, mesmo vendo a luz do dia que estão
errados.
Ser comunista no mundo atual, com tanta clareza que se viu
ruir potestades como a União Soviética e países do Pacto de Varsóvia -
é tarefa para elefante. De a mesma forma defender o capitalismo como
verdade absoluta, quando se viu uma crise internacional tão recente,
fundada na fragilidade do excesso de liberdade das frouxas leis
reguladoras do mercado. Mas, os radicais sobrevivem. E tudo na
política roda, o que foi errado no passado, volta como o certo no
presente. E assim é o homem, um eterno insatisfeito em torno do
próprio rabo.
Nada é mais absurdo e dramático do que se viver num país sem
entender a sua língua. Não poder se comunicar claramente. Não passar
para o outro o seu desejo. É o mesmo que ser um alienado mental. Um
perdido no mundo. Um ser desprezível e insignificante. Por isso o
apego à terra em que se nasceu o sentimento de pátria amada e ao mesmo
tempo de se pertencer a ela.
No mundo encantando da política tem-se uma falsa impressão de
amizade coletiva, de pessoas que gravitam no seu entorno, como se
amigos fossem, pena absoluta, porque amizade, de verdade, na política
não existe. Os seus amigos são os mesmos, quatro ou cinco, aqueles de
tempos remotos, da infância, da escola, do trabalho, um em cada tempo
da vida, que mais valem do que irmãos carnais.
Para se ter um amigo e mantê-lo há necessidade de sintonia
fina. Como uma freqüência de rádio. Em que se mexe o botão até
encontrar a afinidade real. O amigo tem algo de igualdade de DNA. Um
encaixe mental perfeito, tal qual a roda de uma engrenagem, entre o
“macho e a fêmea”. Amigo de verdade é pedra preciosa que se deve
guardar para sempre. Não se encontra nas beiras das estradas, mas, nas
escavações profundas como os diamantes azuis.
MULHERES! ... CHEGUEI
Ariquemes, 7 de março de 2010
Confúcio Moura
O inferno astral da mulherada é o “pneuzinho” de lado. Quando
não é este o fantasma, o horror ainda maior é a gordura depois da
gravidez. E não para por aí, vem a maldição da celulite. O
extraordinário prazer de comer bem, quem não gosta de doce, chocolate,
farofa, lasanha, pizza e bolo recheado? Claro, nem precisa de
resposta.
Amanhã, dia 8 é o Dia Internacional da Mulher. Eu fico puto
da vida com esta imensa discriminação com os homens. Bem que poderia
ser o Dia Internacional dos Homens. Coitado de nós. Cada dia mais pra
baixo. E a mulherada sobe, com força total, arrepiando tudo, e os
homens iguais a cachorrinho de madame, indo atrás, não tardará se ver
na rua, mulher puxando homem na coleira e o bichinho ali, mansinho,
grunhindo humilhações, rau.. rau... Mas, obedientes para sempre.
Mulher hoje em dia mulher trabalha mais que homem. Pode até
ganhar mais. Ocupa espaço no mercado, é gerente de loja, empresária,
juíza de direito, promotora de justiça, varre rua, luta dia e noite,
tem homem, que não agüenta o tranco, pede arrego, e fala – “querida,
você pode deixar, que eu fico em casa e cuido dos meninos”.
E o danado muda de tom, assume geral, que a mulher é mais
forte – pega forno e fogão, e, por incrível que pareça deixa a casa
lustrando. Quem diria! Macho brasileiro, que até matava mulher no
tiro e no júri era absolvido com argumento de legítima defesa da
honra. Vai palhaço, fazer Isto hoje em dia, vai e aguarde o panelaço
na porta do fórum pedindo e clamando por pena máxima. Vai! Porque lá
dentro tem uma juíza coçando as mãos para lhe mandar pro xilindró para
resto da sua vida.
Mulherada, parida, sofrida, mãezona de leite, que depois do
desmame fica de autoestima baixa, comprando sutiã especialmente forte,
puxantes pra cima,, recheantes, assim querendo ser, mais ou menos uma
artista global. E que sai por aí, sondando o preço da cirurgia
plástica, porque assim não dá, não sou mais a mesma. Sabe como é que é
mama empinada é também equipamento de primeira categoria da
sexualidade feminina. Tem gente por aí que diz que mama é órgão sexual
mais importante. Será?
Mas, amanhã é o Dia Internacional da Mulher, nem sei o que
falar que não seja da Lei Maria da Penha, da Delegacia de Mulher, da
licença maternidade de seis meses, do grito de guerra para acabar com
a menstruação, pensando bem, é tremenda sacanagem da natureza esta
bendita menstruação, virgem Maria, porque só elas menstruam? Porca,
cabra, vaca, galinha, minhoca não tem estas “regras” mensais, que
benditas ou malditas incomodam pra burro, e ainda me vem alguns
médicos me dizerem que tudo isto é fisiológico. Mais do que justo
dizer em brado universal – Abaixo a menstruação! Que deixem de agora
pra frente os homens com este peso, se não por toda vida, ao menos por
l mês.
Dr. Elsimar Coutinho, médico ginecologista da Bahia, tem farta
literatura sobre a mulher e a menstruação – “menstruação, a sangria
inútil; vivendo sem regras e sem TPM”. Segundo ele, mulher inteligente
não menstrua.
Nesta semana que todo mundo quer falar da mulher, das suas
virtudes, beleza, competência, trabalho duro, sexo, cirurgia plástica,
salão de beleza, esmalte, batom, depilação, parto sem dor, cosméticos.
É isto aí e muito mais. Só tem uma coisa que admiro
extraordinariamente e falo, com toda certeza, tenho muita inveja delas
- da capacidade de se torturar.
Verdade!
Mulher se tortura numa boa. Aonde você vai? Ela responde –
vou pro salão fazer depilação. Assim, de cara limpa, achando
gostoso... Vou pra depilação! Pra mim depilação com cera quente, nada
mais é do que a sala vip do inferno. Elas não pensam assim. Não
sentem dor. Acham até bom. Aquela dorzinha de repetente. E a outra, a
carrasca torturadora, feliz da vida, mostra a tira de pano cheinha de
pêlo. E ainda diz – Tá vendo aí?
Não vou falar aqui hoje da vida desgraçada de milhões de
mulheres pobres, lascadas da breca, cheias de filhos, sem maridos, sem
amantes leais, quem tem que se virar por aí, de qualquer jeito, para
por arroz e feijão na boca dos filhos. Não vou falar aqui das
milhares delas que não fazem pré-natais, nem exames preventivos de
câncer e que não se cuidam direito e terminam pegando a AIDS. Não vou
falar aqui daquelas moram de favor, no fundo das casas dos outros e
que não tem a menor condição de ter uma casa própria. Não vou falar
aqui de milhões de outras que se matam no trabalho e que não tem tempo
para o amor. Não vou falar aqui das meninas de dez anos pra cima que
se engravidam e que pensam que o filho é uma boneca. Não falar aqui
das milhares de mulheres do Brasil e do mundo que sabem nem ler nem
escrever e que por isso não tem acesso a um trabalho com carteira
assinada.
Ah! Mulheres vocês reclamam de barriga cheia. Pois, na
realidade vocês é que mandam e nós, coitados de nós, machões
brasileiros, felizmente temos que obedecê-las, senão o pau quebra.
PIMENTA NOS MEUS OLHOS
Ariquemes, 28 de fevereiro de 2010
Confúcio Moura
Sou um vendedor de profecias. Por natureza, ando por aí,
cantando em prosa e verso as vocações do Estado de Rondônia. Quando
digo que não se pode fazer discurso único no meio de tanta diversidade
é por convicção de um bom observador.
Rondônia é linda, rica, hermafrodita. Do masculino Rondon ela
virou fêmea – Rondônia, por isso do seu encanto, imprevisível, que
pode oscilar no cipoal da realidade à fantasia, pode ser tudo, pode
ser quase, ela é e pode ser ainda mais.
Fui sacolejando pela BR 364 neste final de semana. Dentro do
carro, mais ou menos como um saco de batatas, acomodando aos baques do
pneu na buraqueira sem fim. O malabarismo de uma viagem sinuosa,
arriscada, entre o torpor do nevoeiro e as chuvas torrenciais.
Pimenta Bueno descortina-se entregue a si mesma, dentro da sua
couraça de mistérios e segredos. Corre nas suas veias uma carga
genética coletiva e um desejo, ainda surdo, de surpreender. Creio que
a cidade seja a mais mineira de todas as demais cidades do Estado. Não
gosta de dizer o que tem. E a providencial esperteza de falar pouco. A
sabedoria de ouvir. Enquanto a cidade inteira movimenta uma energia
imensa quase subterrânea.
A cidade foi fincada no delta dos Rios Melgaço e Pimenta
Bueno. Este ano, por lá, os igarapés de vida curta transbordaram,
pegaram feições de rios, subiram os aclives de terras firmes. As águas
brincam com a paciência dos moradores, invadem suas casas, sobem e
descem nos seus terreiros, parecendo conversar com o homem. Conversa
de natureza com o animal. A própria linguagem do tempo, dizendo: - tem
lugar de água e tem lugar de gente. Cada um deve ficar no seu devido
espaço. E o rio tem o seu. É a briga de todos os anos entre o rio e o
homem.
Pimenta Bueno está ali, transfixada ao meio pela BR 364, no
extremo da prudência, com um amargor entalado na goela, por tudo que é
mais humilhante - a cidade e seus escombros rodoviários. Trecho urbano
perenemente inacabado. E o que era para ser belo e urbanístico
transformou-se em símbolo máximo da inoperância. Da ofensa. Da
agressão ao bom senso. Da justificada ira do morador. Fantasmas de
concreto, armados para serem viadutos, almas penadas a mancharem os
céus e as terras pimentenses. Símbolos perversos das contradições.
Vias marginais danificadas pelo movimento incrível das
carretas. Esqueletos malditos a assombrarem os sonhos de quem deveria
ter paz. É o Governo com sua pesada burocracia do Estado, com seu
paquidérmico órgão de estradas – o DNIT a sorrir indiferente e
sarcástico das dores de uma cidade inteira. “Até quando Catilinas, tu
abusarás da paciência nossa?”
Fora isto, aguaceiro e esqueletos de concreto, a cidade não
para. A carga genética de que falei é a transbordante capacidade de
empreender. Por-se a desafiar, ir do risco ao sucesso pela
persistência. E assim, que se constrói por aqui, a mais nova cidade
das confecções. A cidade está ocupada pelas costureiras. Por empresas
médias e pequenas, a espargir a onda para as famílias, que trabalham
sob encomendas e por tarefas. Mesmo em casa, fazem parte do grande elo
da riqueza para todos.
Além dos serviços, do vigor estilista e alfaiate, Pimenta
Bueno produz tijolos e telhas para Rondônia inteira. A sua argila é
uma bênção da própria natureza. Tirou dela a terra fértil para a
agricultura e em troca entregou-lhe o ouro do barro quase pronto para
louças e cerâmicas de acabamento. As empresas do ramo não param de
crescer.
Por ali, nesta estação do ano, a água mareja no solo, fura o
esfalfo, corre na rua. Um lençol extremamente superficial, devido a
uma manta impermeável de solo, conhecido ali como terra “chocolate”.
Uma barra de chocolate sobre a terra, ampla e profunda, a mesma cor do
cacau, quando solto sobre o piso fragmenta-se em pequenos estilhaços.
Tal qual um vidro. Este solo chocolate que há de ser ainda, e não
tardará, a maior fonte de riqueza do município – é a matéria prima
para cerâmicas e pisos de altíssima qualidade. Chocolate o ouro negro
de Pimenta.
Poderia parar por aqui. O que já foi dito já é muito. Mas,
não. Ainda estou no começo. A empresa Cairu, quem de fora olha jamais
entenderá a sua grandeza. Ela por si só é grande para qualquer Estado
desta federação. Mais de mil empregos na cidade. Um labirinto de
organização contábil, vendas, pesquisas, compras, depósito de peças
que brevemente ocupará quinze mil metros quadrados de área coberta.
Especializada em bicicletas e motos. E tudo começou como uma singela
bicicletaria de consertos.
Fui longe ao Rio Melgaço, que na cidade espraia-se, distante,
corre estreito dentro de paredões de pedras, um cânon ou cânion
estreito e fundo, que se prestou a obras de engenharia para produção
de energia. A ELETROGÓES está concluindo duas usinas – uma térmica e
outra hidrelétrica. Produzirá energia para atender a trezentos e
cinqüenta mil pessoas. Tudo ali é extraordinário. Da engenharia aos
resultados.
Não é profecia – é fato concreto. Pimenta tem potencial e
vocação empreendedora. Será o município de uma nova economia – o
reflorestamento com eucalipto e espécies nativas. Tudo para mover a
termoelétrica. E abastecer a construção civil e rural. E a natureza
pródiga com todos.
BOCAS MODERNAS
Ariquemes, 21 de fevereiro de 2010
Confúcio Moura
Todos são iguais quando nascem. Diz o artigo primeiro dos
direitos universais do homem. Todos os homens nascem sem dentes para
cumprir os desígnios da lei dos homens. Até aí tudo bem, na forma da
lei. Depois eles nascem de leite, brancos, tenros, saudáveis e ficam
ali, na boca por algum tempo. Como imensa graça os dentinhos mordem e
depois eles passam. Não tarda o desdireito a se acabar de vez. A
cárie dental, forte e endêmica, passa como um vento da morte pelas
bocas de milhões de brasileiros. Que mutilados perdem o brilho do
sorriso. Bloqueia no primeiro portal a função básica e essencial da
digestão.
Foi-se o direito de mastigar. Ganha-se outro que é o de
engolir inteiro. Ou em pedaços a vida continua goela abaixo e de tão
raros, tudo o mais parece, que ter dentes brancos, seja graça e honra
das minorias. Privilégio encantado para o mundo das maravilhas. Quero
propor um negócio com você – eu troco o meu celular por um dente
sadio.
Bem que a evangelização poderia começar pela boca. Rogai por
nós pecadores, que desde o princípio, como peso pesado, seguimos o
calvário de tantas cáries, de dentes furados, cariados, perdidos,
arrancados, que vão se tombando, um a um, ou chacinados em bloco. Que
país é este? De humanóides mandibulados e desdentados? Que mesmo assim
fala soprado ao seu celular pré-pago.
É a triste sina da regra geral. E o mais irônico de tudo isto,
que do alto do artigo 196 da Constituição Federal estampa com grandeza
incomum - A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido
mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco
de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às
ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação.
Como é fácil fazer leis.
Onde estão meus dentes brancos? Como aqueles que me nasceram
de leite, tão raros e passadiços enquanto guardo lembranças. Será que
não os terei permanentes, servíveis e magnânimos? Quanto me custará
uma boa mordida, um doce beijo de dentes trinando como os sinos que si
tocam. Não aceito o destino como direito. Nem como justificativa do
descumprimento da lei. Nem porque tudo deve ser sempre assim. E a boca
excluída do tubo digestivo, como se fosse uma sinistra embocadura de
um portal tenebroso.
De tão comum a omissão ao sagrado direito à saúde bucal, o
povo brasileiro, mansamente segue a maioria. Como se tudo isto fosse
tão natural. Pronto e pacífico destino, que a triste ausência dos
dentes, também se perde o direito à ira, a insubordinação e brado
heróico grito da revolta. Mas, eu quero os meus dentes brancos de
volta. De qualquer jeito eu quero os meus dentes de leite. Que se
foram de mim arrancados ou destruídos.
Quem sabe poderia agora, nestes tempos tão modernos, ter de
novo um figuraço como Antonio Conselheiro. Que unisse a todos os
mutilados desta guerra de todos os dias. E ainda fundasse uma nova
Canudos e de lá das margens do Vaza-Barris resistisse a todos os
exércitos. E que a grande causa fosse o legítimo direito a ter dentes
brancos. Eu quero um sorriso perfeito. Quero abrir a boca e ter
fileiras inteiras de dentes, por cima e por baixo, endireitados e
perfeitos.
Aqui não cabe nada que seja adjetivo. Não rima cárie com
natureza esplendorosa. Nem com florestas majestosas. Ou verde pendão
da minha terra onde canta o sabiá. A cárie dói. Dói o dente, o osso, o
miolo. A dor humilha e exclui. Me chame Conselheiro para a sua guerra
santa. Serei um seguidor revolucionário. A luta pelo direito a boa
odontologia na escola. O direito de escovar os dentes todos os dias da
minha vida e usar o fio dental. Eu quero bochechar o flúor das águas.
Eu também tenho o direito de bochechar.
Ao menos isto. Bochechar o flúor. Escovar os dentes com pasta.
E depois abrir a boca e dizer em alta voz - soprado e solene o maior
aaaahhhhhhhhhhhhhh do mundo. Vou correr atrás do prejuízo. A maratona
está aí à frente, correr mesmo que chegue morto, saltar os obstáculos
das latas e mais latas jogados no lixo de dentes que poderiam ser
salvos. Quero pintar uma nova Guernica só para os desdentados vitimas
da omissão de todos os tempos.
Não tardará que a evangelização comece pela boca. Uma nova
campanha da Solidariedade tão massiva, que seja forte e avassaladora
como os milagres do soro caseiro ou da multimistura. E a multimistura
dos dentes sadios é a singeleza de se escovar os dentes e ter a água
fluoretada. E o sagrado direito de visitar o dentista ao menos uma vez
por ano.
Dias atrás li nos jornais que o Brasil tem mais dentistas do
que a Europa inteira. Fiquei alegre, orgulhoso e abismado. Sendo
assim, também, o Brasil deveria ser o país com melhor saúde oral do
mundo. A realidade é outra. Muita gente nunca foi ao dentista. Outros
foram para extrações puxadas pelo inferno da dor.
Eu quero os meus dentes de volta para ter um sorriso perfeito.
A ÉTICA DA MALANDRAGEM
Ariquemes, 14 de fevereiro de 2010
Confúcio Moura
É engraçado o anedotário sobre as relações políticas do
candidato e o eleitor. Vem de longe o voto de cabresto. E todo arranjo
existente no Brasil para se garantir o poder. Lembro-me quando menino
das festas eleitorais. Porque a campanha, para muitos, nada mais é do
que uma festa. E nesta hora todo mundo considera-se importante porque
o voto não tem cara e nem posição – todo mundo é igual.
O coronelismo, como ficou conhecido, o dono do voto fechado em
certos municípios, vem arrastando ao longo do tempo, como uma prática
que foi comum, e ainda é, como aquela de se agradar o eleitor, na
campanha, oferecendo vantagens de todas as espécies. Foi no passado e
ainda não sei se acabou – o candidato dar de presente a dentadura. A
muda de roupa. O pé da botina. Uma nota cortada ao meio. Além de
transporte e comida. Mais longe, tinha festa noite inteira, anterior
ao dia da eleição.
Não faz tempo encontrei na zona rural do município X, aqui de
Rondônia, Maria Dentista que saia de bicicleta de lote em lote, com
maleta na garupa, para “tirar” dente em nome do seu candidato. Fazia a
troca. “Tirava” o dente podre e mais alguns por perto pelo voto da
família. E todo este ensaio de modelos extraordinários, que vão se
modernizando cada vez mais nos mais diversos eufemismos, mas, que na
prática é uma maquiagem ao antigo modelo coronelista de se manter no
poder. As trocas continuam. Os favores. O empreguismo. E todas estas
mazelas em que nada contribuem para efetivas mudanças no
desenvolvimento brasileiro.
Tudo isto está nas raízes históricas da formação do nosso
povo, muito bem descritos pelos nossos eméritos estudiosos em
sociologia e história – Nelson Werneck Sodré, Caio Prado Júnior, Celso
Furtado, Darcy Ribeiro e Gilberto Freyre. Mesmo com a crescente
urbanização, no entorno das cidades, sempre está cheio de gente
necessitada. E bota necessidade nisto.
A poesia caipira do
poeta nordestino Pompílio Diniz, retrata muito bem como era a
visão do homem da roça no dia da eleição. Leia algumas estrofes do
POEMA FESTA DE INLEIÇÃO: - “Amigo
pras nossas banda/Quando é tempo de inleição/ Os candidato é quem
manda/ Dar comida e condução/E a agente que vai votá/ Come até
arripuná/Carne de porco e pirão... Só existe dois partido/ Governo
e oposição/ Os outro é tudo envolvido/ E que a gente queira ou que
não/ Tem que escolher um dos dois/Pro mode ir votá depois/ No dia
da inleição... Dizem até que nenhum presta/ Não vou atacá os home/
Mesmo nois vai é pra festa/ Tirar a barriga da fome/Depois votá
por votá/E do voto que a gente dá/ Só se aproveita o que
come....Foi por isso que Vicente/ Nessa última inleição/comeu que
ficou doente/Carne de porco e pirão/Sarapaté e shoriço/E depois
con sacrifico/Foi votar na oposição....Mas quando chegou a hora/do
pobre home votá/Deu vontade de ir lá fora/Um pouquinho Se aliviá/Mas
o tá do presidente/Começou chamá Vicente/E mandou vicente entrá.....E
o povo de cá de fora/Cemeçou a reclamar/Diz um fazendo chacota/Seu
fiscá vota ou não vota/Diz outro vamos embora/Hoje é só pra
Vicente/E esse tá de presidente/Não bota o home pra fora... E o
presidente da mesa/Temendo haver uma revorta/Levantou-se da
cadeira/E foi bater lá na porta da gabine de Vicente/e depois de
uma tres batida/Disse a voz grossa expremida/TEM GENNNNNNTE.
O
malandro cabo eleitoral faz de uma campanha a sua safra. O
político malandro igualmente também procura a sua safra. Assim com
a de soja, milho, algodão. O cabo eleitoral profissional,
habitualmente tem nas mãos alguma entidade, que pode ser
presidente ou já ter sido, diz-se influente na sua comunidade,
vende vantagens, aterroriza o candidato. Este “pobre” coitado,
pela ameaça daquele bendito, de levar pra outro aquela boiada de
votos, fica meio enlouquecido para atender o “poderoso” chefe
local. Passar voto ao candidato tem um preço. Que pode ser emprego
para a família inteira e dinheiro, material de construção e
outros. Daí vem o endividamento impagável, agiota, venda de casa,
de carro, de moto, poupança de família. Vai tudo. E na hora H não
vem nada. Nem voto. O malandro cabo eleitoral faz o mesmo esquema
com vários marinheiros de primeiras viagens.
O
cara é conversador que nem o Satanás. Pode ou não usar boina.
Camisão folgado no corpo. Sabe a vida de cada um. Geralmente
barrigudinho. Diz que já pensou em ser candidato um dia, que todo
mundo pede pra ele sair. E que a família não deixa. E assim vai. É
o ciclo perverso que se fecha. . Se o “cara” ganha e endividado,
só pensa numa coisa, recuperar o dinheiro gasto. E daí pra frente
vende a alma. Esquece o povo. O seu objetivo é zerar o caixa. E
some. E foge do eleitor. Esquece o que prometeu.
Porque esta é a verdade nua e crua. Infelizmente. O imenso
contraste existente numa mesma cidade. As diferenças entre os
bairros centrais e a periferia. As luzes são outras. As cores
também. Aflora os métodos de sobrevivência. As evidentes
carências, a imensa crença em símbolos, a criação de novos valores
e as evidentes aspirações. Não prepondera o desespero entre eles como se poderia pensar. Apenas um
imediatismo de quem não tem muito a planejar, faz das pequenas
coisas grandes prazeres, como se fossem conquistas sobre a própria
desgraça.
Os escândalos são diários nas nuvens do poder. Em todos os
lugares. É a classe política se destruindo a olhos vistos. Com sua
aparente esperteza. Que gera reação igual. Esperto atrai esperto.
Diante da escassez crônica de recursos econômicos e políticos, em
todas as camadas sociais, do reconhecido desgaste da classe
política brasileira, sobra o impulso de conseguir, com o mínimo
esforço possível, o máximo de benefício. Impõe-se então a nova
ética – a da malandragem.
O DESCOBRIDOR DE
ENIGMAS
Brasília, 7 de fevereiro de 2010
Confúcio Moura
Em todo lugar há figuras folclóricas. Aquelas pessoas que
carregam em si mesmas marcas de alegrias ou manias. No Jaru teve o
Saravá que de tão polêmico, só se o ouvia se não desse tempo de
escapar antes. Era portador do TOC – transtorno obsessivo compulsivo.
Com o TOC o cara tem idéia fixa, preocupação continua. Ele tinha mania
de perseguir falhas na saúde pública.
Do outro lado tem o VICENTÃO. Um boa praça. Sempre de bem com
a vida. Nunca reclama da sua vida dura. Uma memória prodigiosa do alto
dos seus 73 anos de vida. Tem também a sua mania, que é a de entrar na
roda de conversa e daí a pouca rouba a cena só pra ele. Sempre tem
novidade pra contar. O TOC dele é a política. É MDB desde Ulisses. Sua
cabeça é um dicionário de datas e nomes.
Vicente Souza Ramos é maranhense. Barbeiro de profissão. A
mania de contar “causos” veio da necessidade de ganhar clientela e
segurar o sujeito na cadeira enquanto tilintava a tesoura e manejava a
navalha. Enquanto não concluísse a história não dava por fim a sua
tarefa. Ao fim o freguês ganhava uma mão de talco e Água Velva. Do seu
salão o freguês saia rindo e cheiroso.
Saravá já morreu. Ainda é lembrado no Jaru. Quem quiser
ganhar fama espere pela morte. Saravá ficou famoso pela sua
incomparável chatice. Talvez esteja no GWR – Guinness World Records.
Sem dúvida nenhuma, se um dia chegasse à Presidência da República o
nomearia (in memorian) para o Ministério da Saúde.
Vou deixar Saravá em paz. Encontrei-me com Vicentão dia 5
passado na Câmara de Vereadores do Jaru. Não tardou ele começou mais
um caso, como se verdadeiro fosse. Tudo aconteceu na sua viagem de
férias a São Paulo. Ele que vive sereno e calmo em sua casa, um
silêncio apavorante noites inteiras, um latido de vez em quando, o Rio
Jaru apenas sussurra na cheia. A BR 364 fica longe. Enquanto as
carretas de soja passam destrambelhadas nos quebra-molas. Soja e
usinas deixaram a BR um inferno. Preço que se paga pelo progresso.
Em São Paulo não conseguiu ter paz. A cidade não dorme. Pelo
atordoado não se sabe se é dia ou noite. Veio uma insônia apavorante.
Ele aproveitou o tempo para elucidar alguns enigmas que o perseguia a
tempo. Os “olhos” imensos nas asas de algumas borboletas da Amazônia,
a importância da pena do pato, a estreita relação da melancia com a
geografia da Terra, os mistérios do bico do tucano. Enfim, depois de
semana sem dormir conseguiu se satisfazer com os esclarecimentos das
noites em claro.
O PATO vive no lago, mergulha, sai fora e farfalha a asa e
água desaparece. Está enxuto em folha. Suas penas são impermeáveis por
natureza. Enquanto a galinha quando molha fica toda embolada por horas
a fio. Foi assim, por esta propriedade rara que a pena do pato serviu
à Princesa Isabel para assinar a Lei Áurea. Não havia a caneta Big e
nem a Parker naquele tempo. Era na base da pena de pato e tinteiro. O
que deu a ele a preciosidade rara de entrar na história. E a
infelicidade de viver quase pelado pela força da preciosidade de suas
penas.
A MELANCIA, redonda e rajada tem muito para explicar a
geografia da Terra. Corte-a ao meio no sentido talo e fundo e veja que
está na linha do Equador. Cada metade representa os hemisférios norte
e sul. As listras compridas são os “paralelos” que ficam distantes uns
dos outros 111 quilômetros. A melancia tem os paralelos. Se cortar a
melancia no sentido contrário as metades representam o oriente e o
ocidente.
O TUCANO com seu bico desproporcional, grande demais em
relação ao corpo, também explica a sua lógica de sobrevivência. Tudo
aconteceu para se proteger dos predadores naturais. Até a águia tem
bico pequeno em relação ao corpo. E tem fama de ave terrível. O tucano
não. É dócil e pacífico. Mas, ninguém mexe com ele. Bicho nenhum o
ataca. Não vou me meter com tucano, com aquele enorme bico pode
engolir até um boi, quanto mais eu. E assim o tucano vive às mil
maravilhas na floresta.
A BORBOLETA enorme, amarronzada, rajada, tem dois grandes
“olhões” desenhados nas asas. Elas ficam nas pedras e caules. E quando
voam é como se planassem no ar. Para quê os “olhões” nas asas? Também
para a defesa dos predadores. A explicação é uma só – os bichos pensam
assim: - se o leão que é o mais temido animal tem olhinhos pequenos,
meio cocuretados pra fora, elípticos como os olhos dos orientais, como
é que vou atacar a borboleta com estes olhos do tamanho da lua? E com
isto quando avistam a borboleta saem desesperados em correrias.
Por fim, na sua viagem à São Paulo, o mestre Vicentão foi
visitar o Museu do Ipiranga. Lá onde está Dom Pedro I com sua espada
levantada, montado no cavalo branco, bradando o histórico Grito do
Ipiranga – INDEPENDENCIA OU MORTE. Logo perto de Dom Pedro está a
estátua de Rui Barbosa. Ele se lembrou da historio do ladrão de
galinha. Rui estava dormindo e acordou com um barulho no quintal.
Levantou-se de pijama e foi ver o que era. Um ladrãozinho saltou o
muro e tinha entrado no galinheiro e estava à porta com galinha de Rui
Barbosa debaixo do braço.
Rui disse “Não é pelo bico do bípede e nem pelo valor do
galináceo, mas, por ter rompido os umbrais de minha residência. Enorme
desaforo. Se for por mera ignorância perdoou-te. Mas, se for para
abusar de minha alma prosopopéia, juro-te pelos tacões metabólicos de
meus calçados, dar-te-ei tamanha bordoada que transformarei suas
massas encefálicas em massas cadavéricas. O ladrão não sabia o que Rui
Barbosa estava falando, logo indagou: - e aí doutor, eu levo ou não
levo a galinha?
AS COLINAS VERDES
O carro gemia subindo a ladeira. Longe a vista descansava na
paisagem ondulante. E tudo se abria devagar. Imenso vestido verde
mudava de cor diante do sol. As coisas misturam-se em luminescência
como se fosse outro planeta. As quebradas do solo tremiam.
Do alto da terra revolta, outeiros cobertos pelo mar de
floresta. Ela guarda o segredo – os índios URU EU WAU WAU, seres
frágeis, pequenos, quase extintos. Moram nas imensidões, como se
tivessem guardados, desde o sempre e por todos os tempos. E tudo é
calmo e grande. A não ser aqui e ali um entrevero com o homem branco a
lhes furtar madeira, palmito, peixe ou minério. Ou ainda um tiro
abafado nos fundos das paisagens e tomba mais um Uru. E foram muitos
os que foram assassinados. Apoena Meireles protegeu-os com astúcia e
sabedoria. Bateu o martelo do leilão da história – quase dois milhões
de hectares de encostas e vales– que se interligam os dois infinitos
da visão humana.
E vou entrando numa bacia. O sol descansa no fundo dela. E
tudo brilha como espelho. As fazendas pintadas com pontos brancos que
se mexem. É o boi. A vaca de leite. A casa bem feita. A antena
parabólica. Não vi os cafezais em flores. Mais longe sombra dos
telhados. É Colina Verde. Nem precisava do nome porque não se teria
outro melhor. De singelo povoado de posseiros a um assentamento
regular bem habitado. Um distrito estratégico parece ali construído
como uma fortaleza militar. Os montes transformam-se em muralhas. Quem
sabe não tenha sido uma criação dos Urus? O exército inimigo seria
facilmente ali abatido. Mais ou menos como Canudos na Amazônia. As
igrejas são muitas. Escola apenas uma. Mais de dois mil eleitores. Um
centro de saúde diferenciado com leitos. Muitas lojas e mercados. E se
entrecruzam nas ruas a motocicleta e o cavalo.
O desgosto, por maior que seja ali se abate. Basta beirar a
mata e olhar o entorno. Quando cai a tarde os bandos de araras saem
dos seus restaurantes, no alto da serra e mergulham para o fundo do
vale como se fossem mísseis guerra. A tagarelice de metralhadoras e um
sobrevôo rasante sobre Colina Verde. E estiram-se em esquadrilha para
o infinito verde do outro lado da serra. E as cortinas vão se
fechando. Daí a pouco tudo se acalma diante da grandeza. O que é um
simples ser humano diante do oceano? E da imensa paisagem em arte
raríssima? Onde a luz brinca na folha. E a pedra silenciosa conversa
baixinho. E os bichos do mato brincam com as águas. E os igarapés
somem de medo entre as rochas do caminho. Montes que escondem o
nascente e o poente. Como se tudo isto fosse perigoso à visão humana.
Tem hora certa de a cidade clarear. E sempre escurece mais cedo.
Jamirão, Maria do Posto, José Fininho estão por lá.
Equilibrando todos os mistérios do lugar. Cortei a volta e subi a
ladeira rumo a Cacaulândia. E vou subindo e rugindo forças, aquele
flanco virou pasto. Fundo verde pontilhado de nelore. Subi e agora
desço. Abre-se um desvão imenso, a garganta da serra, como se ali há
milhões de anos vulcão incandescido tivesse alterado a geografia. E o
leito rasgado tivesse escorrido a lava quente. Estou na Linha Zero.
Entro no desfiladeiro. A pobre serra florestada ficou calva. Talvez o
tempo. A mão do homem. Bananal abandonado. Foi do José Andrade, mais
embaixo, do Gentil, Ademir Rosseto, João Goiano, Agenor Viana. E
muitos outros mortos ou vivos que sombreiam memórias.
O homem astucioso foi serpenteando a resistência da elevação.
Ali foi igreja. Não é mais. O posto de saúde, não é mais. Tudo é
pasto. Raros pés de mangas onde foram sedes das fazendas. A cerca de
arame estabelece o limite da posse. Escombros da máquina de arroz que
foi comunitária quando ainda se plantava arroz. Dois peões laçam um
boi no campo aberto. O Rio Quatro Cachoeiras se estanca nos bancos de
areais. Papagaios, periquitos e araras fazem festas. Perseguindo-nos
para fora de seus domínios.
Os garis varrem a cidade de Cacaulândia. Empurram carrinhos de
coleta do lixo. A cidade bem cuidada. Ainda resistem por ali o sangue
de João Falcão Metzker e
Zeca Batista. Dois baianos pioneiros e plantadores de cacau. E as
ruas se enchem de bisnetos e tataranetos. Bortolotos e Biffs. E se
chocam intimamente o Nordeste com o Sudeste, a Bahia entrando no Rio
Grande do Sul e foram se estabelecendo num pacto de amor eterno.
Tudo foi se modificando com o galgar do tempo. Colina Verde
com sua aldeia de brancos e mestiços. Num respeito quase desrespeitoso
com os índios. Do outro lado da quase cordilheira está a planura do
outro mundo. Um desvão, eu disse, mas, um Brasil profundo
conectadíssimo, Internet, antena parabólica, telefonia, TV tela plana.
Informação em tempo real. Nunca houve um longe tão perto como Colina
Verde.
Ariquemes, 18 de outubro de 2009
Confúcio Moura
A CIDADE E A
CRIANÇA
Nenhum governo vai fazer a sua parte. Nenhum prefeito vai
entrar na sua sala para corrigir seu filho. Nem substituir pai e
mãe. Esta é uma tarefa exclusiva da família. Dentro de casa há
um reino encantado. Que também pode ser maldito. O tempo não
para.
E se o tempo não existir?
Esta é a grande verdade. O homem foi construindo tabelas.
Regras. Segundo, minuto e hora. Dia, semana, mês e ano. Foi
assim mesmo – construindo sempre e assim será. O que não existia
passou a existir. Os foguetes pipocaram no ar às 6 horas. Todo
mundo se assustou. O que será meu Deus?
Aniversário de Ariquemes.
O bolo da festa será o seu pãozinho francês de todo dia. O
que já será muito e auspicioso. Ariquemes está madura como uma
manga rosa. Atravessando a sua melhor idade. São trinta e dois
anos. Viva! E como é bom misturar dois dias de festas. Amanhã
será O DIA DA CRIANÇA. Mais um aniversário prolongado, bom
demais, para se por em ordem as gavetas, dormir mais um pouco,
andar a pé, jogar bola, por conversa fora ou ser perder nas asas
do Google.
Quem disse que Ariquemes só tem trinta e dois anos? Quem?
Talvez a professora, talvez ninguém. É e não é. Como o Brasil
de quinhentos anos. O Brasil tem infinitos anos de
descobrimento. Pedro Álvares Cabral fez apenas o seu registro de
nascimento. O Brasil sempre existiu, com seus índios e bichos e
terras. E os índios são também seres humanos. Talvez vieram pra
cá por terrível abalo no continente, que o rachou ao meio,
África pra lá, América pra cá. No meio o Atlântico.
“Eduque
as crianças e não precisará punir os homens”. Vamos começar em
casa pelas regras e os limites. Que tal iniciar pelo dinheiro?
Dizer pra eles que dinheiro não cai do céu. Que não se pode dar
dinheiro à criança quando ela pede. Nem comprar brinquedos a
revelia. O cérebro da criança é uma gaveta vazia. Ela guarda o
que se coloca dentro dela. O bom hábito deve ser repetido. Não
ceda às birras. Nem as chantagens. Dinheiro não cai do céu.
Era fevereiro de 1977, o Rio Jamari esturrava de cheio. A balsa
puxava gente de um lado pra outro. Muitas mulheres pariam do
outro lado do rio. Dona Dorva tinha que acudir. O Governador do
Território desceu de helicóptero. Juntou gente. Uma curiosidade
medonha. Fui atrás da comitiva com Belmira e Osmar Raposo. A
Nova Ariquemes surgiria, até que enfim. Todo mundo parou nos
fundos da roça da família Ronconi. Um cafezal. Outros aventureiros se juntaram. Todos carregados de coragem imensa. E
muita irresponsabilidade em ocupar o desconhecido. Sem nenhum
estudo comprovado. Era mais um ufanismo de governo. Para se
livrar de um problema grande no sul e sudeste. A criação das
novas fronteiras agrícolas. Primeiro foi Andreazza e depois foi
Rangel Reis, ministros do Presidente Geisel. Eles que
implantaram em Rondônia o novo Eldorado.
É com a criança que se construirá um país melhor. Por ser um
(criança) material em formação. Cérebro vazio. Terreno fértil
para se plantar a boa obra. O líder é o pai. O filho segue o
pai. Aprende o cheiro e o gosto. Guarda a voz da família no
coração. Registra o carinho no tutano dos ossos. Não o ensine a
consumir sem necessidade. A não desperdiçar. A comer frutas e
verduras. A não abusar do sal e do açúcar. Ensine-o a correr.
Estimule-o a brincar. É bom brincar. Subir no pé de goiaba. A
balançar na corda. A soltar pipas. A pular cordas. A jogar
bola-de-gude. Ensine a seu filho a gostar de matemática.
Brincando com os números. A ler o universo de luas e estrelas.
Eduque-o brincando. Não precisar bater. Apenas determine o
limite. Depois o castigo. E também a recompensa.
O Coronel Humberto da Silva Guedes subiu no trator e derrubou
uma árvore. Aplausos. A cidade seria construída. Carpintero bem
rápido fez o projeto. A emancipação veio em 11 de outubro de
1977. Mas, não é bem assim. Ariquemes é bem mais velha.
Movimento sobre movimento, tempo sobre o tempo, a borracha e o
minério, Rondon e outros mais, lá detrás vem Ariquemes se
arrastando no meio do mato. No meio do mato tem o mistério. A
mata esconde muita coisa. As jazidas minerais, a imensidão de
águas e os mistérios dos medicamentos naturais. Tudo ainda pode
ser. Muito mais. A matéria prima para perfumes, alimentos,
resinas, cosméticos e voará no imaginário uma imensidão de
porvir plenamente possível. A produção de energia.
As crianças merecem ser salvas. Porque o Brasil de hoje é de
guerra civil silenciosa. Foram-se muitas décadas perdidas. Se
não cuidarmos teremos outras tantas. Salvar ao menos as
crianças. Pai e mãe serem pais de verdade. Escola voltar a
ensinar. Colocar estas palavras de novo na moda: obrigado,
por favor, me dá licença. Já é muito. Hora de sair e
hora de chegar. Vigiar o filho de perto. Olhar o caderno dele.
Dar carinho para receber depois. Conversa franca. Sem gritos.
Sem bater. Sem xingar. Além do mais, o beijo, o abraço, o
carinho, o elogio,e o respeito.
Ariquemes, 11 de novembro de 2009
Confúcio Moura
UMA RODADA GERAL
Quando era menino vivia no sertão de Goiás. Ainda era Goiás.
Hoje é Tocantins. Deputado e Senador vi um ou dois por lá em mais de
15 anos. Nas campanhas políticas ninguém aparecia. Punhadinho de
votos. Que nem valia a pena. Além do mais, por necessidade absoluta
havia muito pedido de emprego e outros favores. Por que se aborrecer
por nada? Era melhor não ir.
Ninguém sabia de nada. Não se lia jornal. Revista velha.
Cozinha com lenha. Transporte no lombo do jumento. Carro de boi. O
carro de boi cantava, eixo engraxado com sebo e carvão. Ia a vinha,
subindo e descendo, sem pressa puxando mercadoria. Pedra, tijolo e
barro. Ninguém reclamava. Não se tinha comparação com mais nada. Leite
vendido de porta em porta. Até hoje continua assim. Funileiro,
ferreiro, carapina, sapateiro, seleiro, pedreiro, ajudante,
alfaiate... Era assim e pronto. Todo mundo tinha profissão. Suava a
camisa.
Uma igualdade geral, quase um socialismo por baixo. Do
remediado ao desvalido. Era classe D e classe E. Lá embaixo na escala
social. Ainda acho muito a classe E. Pra mim, por ali, era classe Z.
E ninguém reclamava. Ninguém sabia reclamar. Ninguém pedia nada de
benfeitoria. A malva na praça. O capim selvagem nas ruas. De vez em
quando se passava uma foice. Ninguém xingava o prefeito. Ninguém sabia
que nem havia direitos. Povo feliz na sagrada ignorância.
Não me lembro de gordos por lá. Povo enxuto, carne e músculo.
Um dedinho de gordura fina. E serviço pesado, dia inteiro.
Refrigerante não havia. O arroz e o feijão. Carne cozida, não me
lembro de bife. Paçoca de pilão. Paçoca de amendoim. Gergelim. Suor e
suor. Tomei a primeira coca-cola aos dezesseis anos. Pudim na mesma
idade. Sanduíche mais ou menos aos vinte. Todo mundo magro.
Josué de Castro, médico pernambucano denuncia nos livros o
absurdo da fome no Nordeste. Aquela ponta de Brasil era mais Nordeste
que Centro Oeste. Hoje é Norte. A Bahia encostada, o Maranhão também,
um nariz do Piauí, foi ali que eu nasci, num Norte, Nordeste e Centro
Oeste. Cantão de mundo quase desvalido, perdido, achado, comido, sei
lá dizer o que era. Nem me interessava por ser de geografia
indefinida. Não se sabia a causa da morte. Todo mundo morria do
coração. Morreu de quê? – morreu do coração. Ou quando muito “de
repente”. Velho caducava. Hoje se chama Alzheimer.
Todo mundo vivia feliz. Mulher se casava virgem. Nenhuma
colega minha “se perdeu” na vida. Quase todo mundo rezava antes de
dormir. A missa no domingo era a alternativa da cidade. Para se ver
uns aos outros. Todo mundo ficava na janela olhando a rua. Ninguém
tinha pressa. A fala era arrastada que nem engenho de rapadura. O
campo de bola não tinha grama. Maioria gostava de ler. Não havia
médico. E menino apanhava para tomar lombrigueiro.
Importante – ninguém era gordo. Meninos e adultos no peso ou
abaixo dele. O arroz era socado no pilão. Muita fruta nos quintais.
Mais ainda no cerrado. Caju, bacaba, goiaba, jabuticaba, baru,
ananás, tangerina, banana, macaúba, manga, muita manga. Manga comum,
manga espada, manga rosa, coquinho. Cuscuz, beiju de tapioca, batata
cozida, mandioca, óleo de coco. Era o que se comia.
E agora, depois de tudo que se viu, este mundo espetacular,
até a comida mudou, pizza, pão com recheio, farofa enlatada,
sanduíches de todo tipo, molho, maionese, catchup, cobertura, copo
grande de refrigerante, batata frita, tudo crocante, crau e crau. Tem
sanduíche de tão grande que a boca não cabe. Boca e sobreboca e
sub-boca tudo lambuzado de cremes de leite e outras barafundas. Uma
comidinha desta tem mais de quatro mil calorias. E daí a pouco mais
ainda.
Ninguém quer mais suar a camisa. Nem andar a pé. Nem puxar uma
bicicleta. Nem levantar para ligar a TV. Nem andar a cavalo. Nem puxar
balde d’água para encher o pote. Agora é moto, carro, ônibus e avião.
E lá vai a vida engordando. Lá vai a pressão subindo. E o país
gastando cada vez mais com remédios. E não tem nada que dê conta.
Faltam verbas para os hospitais. Enquanto isto o povo come cada vez
mais. Este mundo de baboseira. E tudo muito gostoso. Eu quero no
almoço é lasanha. E na janta vou pedir uma pizza à moda da casa. No
quebra-jejum vou comer um big-mac com dois litros de coca-cola.
E bye e bye vida minha. Ainda não escolhi se vou de São
Francisco ou São Sebastião. Bye.......
Ariquemes, 4 de outubro de 2009
Confúcio Moura
FOI ASSIM E SEMPRE
SERÁ
Não é verdade que
foi assim e sempre será. Porque as verdades mudam. As mentiras
também mudam. No decorrer do tempo verdade e mentira misturam-se
como as cores do arco-íris. As sete cores quando misturadas
transformam-se no branco. Então é assim em todas as coisas – não há
verdade absoluta. E que tudo é bem relativo.
Damião Prandini não
era médico. Nem sei o que foi na sua juventude. Aqui, em Ariquemes,
quando não havia médico, ele e o José cuidavam de todos os
deserdados da região. Mais outros, tanto quanto importantes que se
dedicavam aos mil e poucos moradores, dobro deles encafifados nos
garimpos clandestinos, na matança de gatos pintados, onças e
equivalentes para venderem as peles. Belmira cuidava das hepatites e
das mulheres com suas doenças íntimas. Era parteira de fama.
Damião, na escala
hierárquica (dos sem-regras) era o príncipe dos “médicos curadores”,
talvez tenha passado por alguma farmácia de interior ou por
hospitais distantes, onde pode pegar alguma prática e perda do medo
de sangue. Foram eles e os outros, que pelo sim e pelo não, cuidavam
destes povos do interior do Brasil – o Brasil superprofundo. Naquela
ocasião, antes de 1 975, era de fato, um interior superprofundo.
O José, até hoje
peregrina pelo mesmo lugar. Andar inalterado e sempre de branco,
corpo inteiro, talvez, por promessa, continua de branco, creio que
tenha hoje 80 anos. Este bem discreto, palavras dele saem no anzol
ou a lanço. O ritmo do passo denuncia a falta de pressa. Para ele
não há urgência. Dedicou-se aos matutos com suas endemias crônicas.
Baços gigantes, olhos amarelados, indolentes nos movimentos – eram
os portadores da malária de repetição. Ele não se vexava dos soros
amarelos e negros, sempre coloridos nos seus extremos, as cores dos
soros, reforçados em coquetéis de vitaminas, gotejavam para sempre.
E depois andavam para frente e para trás para completarem sempre o
circuito da vida e da morte.
Ariquemes, 27 de
setembro de 2009
Confúcio Moura
A CASA ENCANTADA
Nair Barreto já foi e ainda é vereadora em Ji-Paraná. Ontem tive na casa dela. Depois do Rio Machado, alto da Vila
Brasília, muro de proteção, não se vê da rua a fachada da casa, a não
serem duas grandes mangueiras e uma touceira de açaí. Toquei a
campainha e logo o portão abriu-se suavemente. E aí eu vi uma casa
como deveria ser todas as outras na Amazônia. Nada especial. A não ser
o sombreado maravilhoso. Mesmo no meio da tarde, quando lá fora o
asfalto quente mede quarenta graus, ali dentro pode-se conversar na
amenidade da proteção das árvores. Elas formam uma segunda cobertura,
avançam sobre o telhado, entre folhas e telhas uma corrente de
convecção roda o ar numa permanente onda dos cataventos.
Tem a casa e a extracasa. Uma varanda aberta, mesa forte e
tolerante, inúmeras cadeiras, de propósito colocadas para receber
visitas e estender a conversa sem o olhar das horas. Dr. Jorge
Barreto, que tem a história política do Estado na palma das mãos, nem
sabe por onde começar, mas, de imediato desconfia da visita fora de
hora, no meio da manhã. Uma ronda de peemedebista invade a paz do seu
sábado. Ele, como um mestre plumado, colorido, bicudo, como se fosse
um rei do tucanato rondoniense deixa-se levar pelo calor da visita. A
conversa flui escorregadia, como filete d’água entre pedras, sem
nenhum silêncio vexatório.
Não tardou a Nair trazer o café. Logo depois o suco de manga.
A manga congelada da fartura do seu quintal. Por que o agrado
costumeiro, de tão brasileiro, virou moda, em toda casa, de se
oferecer o cafezinho às visitas? Nada mais do que a cultura do nosso
povo. O café. Na casa do Jorge e Nair não foi só o café. Além de
tudo veio a boa prosa. Onde todo mundo sorriu bastante. E como é bom
sorrir! Até mesmo o Josiel, retrancado como Nilton Santos na defesa,
até ele mesmo, esbaforiu-se de sorrisos.
A crônica é sobre a casa. O modelo especial e inteligente,
ainda mais agora, nestes tempos de mudanças climáticas. A casa
ecológica. E esta pelo que vi não foi construída agora. Eduardo que
foi vizinho, disse que teve por lá, no mesmo quintal, um pé de
abacateiro. Problemático que foi, teve que ser abatido, devido às
repetidas investidas da meninada, em saltar o muro para furtar os
frutos. Que eram mais desejados que as lindas mulheres da Vila
Brasília. Um abacate me basta e me satisfaz. Além de carnoso,
gorduroso, o abacate trás felicidade à insaciável fome dos meninos
peraltas. Foi
Deu na cabeça da Nair, certa vez e faz tempo, em campanha, ir
a Campo Novo visitar um assentamento e ao tempo ajudar o candidato a
Prefeito da cidade. Encheu o fusca e partiu. Mais de trezentos
quilômetros pra ir e outros tantos pra voltar. Ela não levou nada pra
comer. Nem água. Pensou que por lá encontrasse lanchonete,
restaurante e supermercados. Naquele tempo não havia nada. E a fome
foi batendo no peito. E as tripas em convulsão. Nem almoço, nem goiaba, nem mamão, nem um pedacinho de rapadura.
Chegou noite, a festa na roça. O comício, ela suando frio, fraqueza e
pressão baixa. Ah! se arrependimento matasse! Ela se sentou numa
pedra e ficou lá, sem a menor energia para mais nada. Parece que a
morte estava chegando.
Lá no fundo do quintal, veio o cheiro do churrasco. Jorge foi
lá dar uma olhada. Tinha um espeto sobre braseiro. Só um. Nair se
animou foi lá em busca de uma carninha com sal, quem sabe mandioca
cozida, bacana para tirá-la da hipoglicemia perigosa e alentá-la ao
discurso que se aproximava. Ela não agüentou. Viu o canivete. Mas,
que canivete Nair? Aquele sujeito porco, horas atrás estava tirando
bicho de pé de uma menina com o bendito canivete. Ela precisava do
churrasco. Mas, o cérebro não deixou. Chegou perto, sentiu o cheiro, o
canivete na carne, boca cheia d’água, o canivete, o mesmo do
bicho-de-pé, pustulento, estômago mexeu, ânsia de vômito. Não comeu.
Ela piorou.
Veio a hora do comício. Ela não agüentou nem se levantar da
pedra. E ficou por lá a se contentar com as estrelas e os sonhos.
Sonhos como pratos de arroz e feijão. Um bife bem passado. E um copo
de suco de manga. E a noite avançou, queria dormir, até para esquecer.
Encontraram apenas um quarto, seis pessoas, amontoaram-se e ela apelou
– Jorge eu vou morrer. Arruma comida, pode ir, dá seu jeito. Ele foi.
Só conseguiu cinco chocolates, com a graça de Deus. Ela brigou. Não
quero chocolate, eu quero é comida. Não havia. Por fim cedeu diante da
dura realidade. Devorou tudo rapidinho com a voracidade dos bichos
famintos.
Francamente, Nair e Jorge - adorei a visita a sua casa.
Ariquemes, 30 de agosto de 2009
Confúcio Moura
CAMPANHAS, DISCURSOS E
FATOS CONCRETOS
Sou político e morri.
Não poderia ir pra outro lugar, inferno. Também pudera a política já é
mais ou menos igual. Como se tivesse lá. Estou lá embaixo no meio do
maior agito geral. A coisa é quente. Fazer o quê no céu, aquela
mornidão, só gente tomando passe, para se acalmar ainda mais,
serenidade, ninguém briga, ninguém grita, silêncio de caverna. Não dá.
Político não merece tanto. Aqui tem forró, pífanos de Caruaru,
gritaria, gente na porta clamando, desesperados, homem batendo em
mulher, minissaia, topless, pura vanguarda. E ali na frente tem um
comício.
Vinha de Cujubim no
sábado. A estrada em obras, mais ou menos um calvário. Ciro Andrade
vinha contando história. Eu rindo. No inferno também se ri. O carro
cheio, calorão de abafar, homens gordos, espaços estreitos, de vez em
quando dançar a coluna, estremecer os músculos e ouvir conversas,
sempre políticas, sem parar. De vez em quando o adversário pena, ele é
o próprio Satanás. Agmar Piau, ano de 88, campanha de Prefeito em Ouro
Preto do Oeste. Gleba Aninga e Fazenda Triângulo invadidas. Pistoleiros pra
todo lado. MST não agia por aqui. Só posseiros valentes. Lá na
fundiária da Triângulo havia eleitores de Ouro Preto. Acampados na
resistência.
Vereador José Martins
chamou Piau, vamos lá, tem gente. E foram no fusca. Mais três
companheiros. Naquele tempo petista também era companheiro. Estrada
péssima, carreador ruim, lá se foi, penando no aperto, lentos e quase
parando, cinco horas de sacolejo. Tonteira, estômago embrulhando,
manto de poeira no corpo inteiro. Noite escura e nem o céu se via.
Trinta pessoas da roça, sofridos, lá no fundo, lamparina acesa,
lusco-fusco, Rosaria Helena estava junto, era a vice. Piau idealista,
com PT na cabeça, discursinho na ponta da língua. Estes latifundiários
ladrões, cheios de capangas e pistoleiros, matadores de aluguel, põem
gente pra matar trabalhadores. E pau e pau e pau. Como é que pode um
homem ser pistoleiro? Receber dinheiro para matar um inocente? É o fim
do mundo. Estamos ainda, companheiros, no tempo da escravidão. Estas
fazendas imensas só para um dono. Absurdo. Latifúndio improdutivo.
Pistoleiro é degradação humana. E emoção total. Rosária deu sinal,
ele não entendeu, entusiasmou ainda mais. Pensou que era para aumentar
o tom. Falou da causa socialista, de Cuba, do grande líder Fidel
Castro, do Che Guevara. Rosário dando sinal. Ele sem entender. Daí a
pouco virou o rosto, atrás cinco pistoleiros, armados até os dentes,
Piau olhou, respirou fundo, não mudou o tom, mas, num lance heróico e
salvador, assim tão de repente, como se mudasse o canal da TV... “no
entanto, pistoleiro também é um trabalhador. A gente tem que
compreender a situação, é pai de família, muitas vezes está até
desempregado, e aceita a situação, mas, no fundo é gente boa”.
A festa era grande,
Luiz Passoni era Presidente da Câmara de Cujubim, tudo cheio, sem
nenhuma cadeira, gente em pé, calor pra chuchu, vereador de paletó e
gravata, sufocação, como se tivessem dentro de um caixão de defunto.
Sessão solene para assinatura da nova LEI ORGANICA DO MUNICIPIO.
Secretário trouxe a lei para o Presidente sancionar. Na frente de todo
mundo, elegante e solene, ele pegou o carimbo. E começou a carimbar,
todo mundo olhando, braço elevado e pá e pá e pá. Bem alto. Logo
depois do discurso magnânimo. E pá e pá. Na hora de assinar, tinha
batido o garimpo de cabeça pra baixo, virou a página e assinou tudinho
plantando bananeira.
Era a primeira
campanha do Edson Martins, para Prefeito de Urupá, ano de 1996. Ele
evangélico solene, Maria José ainda mais, em tudo metia o nome de
Deus, se for para sua honra e glória quero ser eleito, só se Deus
quiser, estou aqui em nome da causa, e se for da vontade Dele. Foi a
primeira reunião na linha. Sem luz elétrica. Ele no maior ideal. Muita
gente, como se fosse uma festa. Ele discursou pela primeira vez. E
falou de Deus e dos homens. Do seu propósito com Urupá. Antes dos
vereadores falarem começou lá fora uma briga. Depois ninguém mais
controlou. A cerca de bambu foi desmanchada, cada palanque no bambu
virou flecha. Briga no escuro. Todo mundo virou inimigo. Gritaria.
Edson agarrou Maria José, foi pra cozinha, aquietou-se na beira do
fogão e pau quebrou lá fora. Só grito. Me socorre que estou furado.
Final das contas, cinco pessoas caídas no chão, peitos e barrigas
perfuradas por facas e pontas de bambus. Outros tanto machucados,
ensangüentados. Edson pensou em largar a campanha. Era um aviso de
Deus. Coisa horrorosa. Maria José chorou demais. Levaram os doentes
para Ji-Paraná e Alvorada. Um deles salvou por pouco, teve até na UTI
entre a vida e morte. No fim ele ganhou a eleição.
E eu continuei aqui,
no bem bom, caliente, Vermelho x Amarelo. Alice só levou uma pedrada
na cabeça. Que nem foi muito assim. Quebrou um carretel de coluna, foi
parar na mesa de operação em Goiânia. Abriu o pescoço para colocar pinos de titânio, placas importadas,
quinze mil reais só de ferragem. No aeroporto quando passa no detector
de metal apita. Toda vez. A moça da Polícia Federal procura no corpo
dela arma. Não acha. E que mistério é este? Esta mulher engoliu uma
pistola. Só pode ser. Não é. É a placa de titânio. Pelo menos, neste
inferno vivo, ela ficou bem diferente das outras, ela apita no
aeroporto. Não é uma glória?
Ariquemes, 23 de
agosto de 2009
Confúcio Moura
PRECISA QUERER
Nem sempre o que se deseja acontece do jeitinho que se quer. É
como se diz, mira-se numa coisa e acerta em outra. Bom mesmo é sonhar. Então fui eleito Deputado Federal em 1994. Planejei um
mandato justo e necessário. A opção veio na hora, a de trabalhar
para as comunidades isoladas do Estado, levar energia elétrica
para quem não tivesse, apoiar a universidade e denunciar
injustiças.
Vou contar um caso pra vocês. A do Setor Oriente, Theobroma.
Gente pobre, isolada na mata, sem estrada, sem luz, posseiros, e
que ficaram ali com roças do toco, magros, perdidos, nas mãos de
Deus esperando por dias melhores. E me juntei a eles como a outros
também na mesma situação. Foram dezessete projetos em todo Estado.
É como se fosse a favelização da Amazônia. Mulher e filhos
longe de Deus e perto da Idade Média. Por ali o que se tinha de
sobra era a necessidade. E eu pensei grande, e queria porque
queria que tudo acontecesse bem rápido. Ficava nervoso porque a
coisa demorava demais. E corria de Brasília a Manaus. Ou de
Brasília à Belém. Tudo em busca de recursos para estas gentes
perdidas. EMATER, EMBRAPA, SEBRAE e curso e mais curso. E o
dinheiro foi chegando. E as doações também. E a Associação Rural
foi devidamente composta. E Tonhão foi o primeiro Presidente,
depois José Lourenço.
A estrada foi uma bênção. A energia em todas as casas também.
A escola ajudou muito. O Posto de saúde abriu e fechou rapidinho.
Até hoje está lá às moscas. Energia solar para as escolas veio de
doação da Sharp de Manaus. Não tardou o sumiço das placas e das
baterias. Trator, implementos, gado leiteiro comprado e doado.
Botijões com sêmen. Curso de inseminação. Consórcios
agroflorestais. Plantio de café comunitário com dinheiro da
Suframa. Tanques pra peixe. E briga e mais briga. Toyota novinha.
Dinheiro pra sede da Associação. Fartura de tudo. Cursos do SEBRAE
para produtor virar empreendedor. Escola Ativa. Segundo grau
semipresencial.
E vieram as brigas internas. O café morreu sem cuidado. O
sêmen se perdeu nas botijas. Ninguém se entendia. Tonhão metia
medo devido a valentia. Não aceitava reunião da diretoria. O facão
dependurado na cintura, quem se atrevia a contestá-lo? Os tanques
de peixes só produziram uma safra porque com dinheiro publico se
comprou alevinos e rações. Os evangélicos saíram da Associação
devido as brigas e palavrões. Nada deu certo. Havia pedras
invisíveis nos caminhos. Eu não conhecia estas pedras. Vacas,
touros e novilhas que eram comunitárias, magras, largadas,
bichadas, bernes e carrapatos. Fui lá pus o gado no curral e fiz o
sorteio. Dividi o gado pra cada morador. Ficaram alegríssimos e o
gado melhorou a saúde. O trator até hoje está no toco. Os
implementos ao tempo enferrujados. A trilhadeira se acabou pelo
mau uso.
Tudo era para ser comunitário. Mais ou menos um regime
socialista. Onde todos participassem igualmente dos benefícios e
igualmente trabalhassem. Foi o imenso erro. O meu comunismo não
deu certo, como não deu certo na Rússia e ainda resiste em Cuba e
na Coréia do Norte.
Vieram toneladas de adubo e calcário. Tudo de graça. Nem
esparramaram nas terras. Venderam para os fazendeiros. Aprendi
muito com este pessoal. O que mais me chamou a atenção foi a
desunião. A imensa distancia entre a necessidade e a capacidade.
Entre o pedir e o fazer. E a triste realidade de não saberem os
duros caminhos da riqueza. Há uma ânsia voluptuosa para se
adquirir bens como quisesse encher um imenso lago vazio. Tudo é
pedido. Até a lua. Mas, se vier a lua ela perderá o brilho.
Este projeto pra mim foi um doutorado. Nunca aprendi tanto.
Nunca perdi tanto. Aprendi que é melhor ir devagar. Que muito
dinheiro público no Brasil é jogado fora. Que sem conhecimento e
tecnologia é besteira se investir. Percebi que o interesse pessoal
é muito maior do que o coletivo. Que os projetos devem ser
amadurecidos e que eles devem participar com dinheiro e trabalho.
Nada de graça. Caído dos céus como a chuva. Saí do clientelismo
para nunca mais voltar. Agora ponho na balança o custo e o
benefício. E concluí que o Brasil não é pobre, tem muito dinheiro
público que é mal gastado. Com os outros dezesseis projetos a
ajuda foi bem regrada. O resultado foi melhor. O prejuízo ao
Governo bem menor.
Quinze anos depois volto lá. Os velhos estão aposentados, os
casais ganham quase mil reais por mês. Os filhos foram embora.
Alguns netos por perto. Todos tem geladeira, televisores,
motocicletas, telefones em casa. Eles melhoraram e muito de vida - mas, do jeito deles. Não se meta a mudar o
ritmo das coisas, a passar o carro à frente dos bois. Esta foi pra
mim a grande lição.
Ariquemes, 16 de outubro de 2009
Confúcio Moura
AS CORES DO FUTURO
Já me disseram que o futuro é negro. E se for assim tem tudo
para ser maravilhoso. Porque sempre o dia de amanhã é melhor do que o
de hoje. É o que se pensa e o que se diz. Alguma coisa nova amanhã
será inventada. E tudo avança e se aperfeiçoa. E a gente que vive
hoje, com tanta coisa nova, celular, TV de tela plana, DVD,
computador, email, gravador fica meio abestado com tanta novidade.
O homem é o mesmo. Ele não muda. O sentimento, a emoção, o
desejo de progredir, aventurar, dominar continua o mesmo através dos
tempos. E todo mundo acha que está certo. O mais cruel bandido acha
que está certo. E a gente estuda e pensa que sabe muito. E se gruda
no livro e lê isto e aquilo. Decora alguma coisa. E depois esquece
quase tudo. Mesmo assim acha que sabe muito. Criar mesmo alguma coisa
prática e proveitosa pouca gente cria. Pensar diferente do outro pouca
gente pensa. E de vez em quando surge um ser especial que discorda. E
escreve tudo diferente. E todo mundo se vira contra ele. Mais tarde
se transforma em gênio.
Viaje no tempo, meu irmão. Vá de jatinho ao Egito antigo, a
Roma, a Grécia - quando você perceber que irá morrer de velho e não
dará conta de entender o que escreveram os imperadores, os filósofos
gregos, os sábios egípcios, pobre de você, do euzinho aí, que se acha
o tal e verá que não passa de uma minhoca humana. Basta dar uma
olhadinha nas pirâmides egípcias. Basta reparar o sistema de irrigação
que eles usavam antes de Cristo às margens do Nilo. E o mais admirável
é a conservação dos cadáveres dos seus faraós, as múmias, de suas
belas mulheres, vaidosas, pescoçudas, invejadas. A escrita enigmática
e misteriosa (hieróglifos) e arte expressa na teoria da frontalidade.
E aí meu caro, o que acha da sua sabedoria extraordinária e
contemporânea? Do seu belo celular multifuncional, do seu carrão
digital, do seu cartão de crédito, das suas bugigangas chinesas que
enchem a sua sala e que depois quebram e somem e não fazem nenhuma
falta? E você fica por aí, simplesmente copiando e colando, acha tudo
isto o máximo da modernidade. Entenda que o homem continua o mesmo.
Ele quer pouco e vive com o essencial. O que mais deseja é ser feliz.
É viver em paz. É comer todo dia. É amar e ser amado. E mais ainda
ser admirado, ao menos admirado por ser chamado pelo nome. E ser
tratado com gente. Isto é o máximo.
E a cor do futuro? Bem que eu queria que ele tivesse a cor da
flor do maracujá. De tênues ramas verdes, frágeis, penduradas nos
aramados, nos pomares iguais, elas brotam esplendorosas e
surpreendentes. Não há poema que possa dizer do seu encanto. Ou do seu
mistério. E tudo se mistura ali, do roxo ao azul que se encaminha ao
branco, a cúpula verde e um pedúnculo soberbo. O futuro poderia ser
assim de tão belo não existir e se existisse fosse um terrível
imaginário, mais ou menos fictício, assim como um paraíso, que mais
tarde se tornasse verdade pura, num copo de suco agridoce,
inconfundível, singelo amarelado que nos entrasse na alma e que tudo
num circuito bendito voltasse a ser a flor do maracujá. Que brotassem
flores com estas nos seus corações.
Por que esta inspiração de hoje? De falar de futuro e
maracujá? A razão é simples, semana passada fui a Estrela de
Rondônia, distrito de Presidente Médici, assistir a sétima festa do
maracujá. Por lá o povo vive feliz. A base da economia é o maracujá,
abacaxi, goiaba. Cerca de 600 casas num roçado do olho, maioria de
alvenaria, telhas de barro, ruas asfaltadas, uma praça com fícus
imensos. De tudo havia maracujá, no suco, no creme, na comida, no
molho, no bolo, na torta, na pizza. Trezentos pés de maracujás bem
cuidados sustentam uma família inteira. A fruta. A opção de futuro do
Estado pode estar em Estrela de Rondônia. Hoje, Rondônia prospera
pela força do dinheiro do PAC (programa de aceleração do crescimento),
com crescimento monumental. E depois? Como será? Não mais a terra
arrasada, de triste lembrança, da garimpagem do ouro no Rio Madeira.
Nem os destroços do Rio Santa Cruz no Garimpo do Bom Futuro. Nem as
milhares de serrarias que foram montadas e desmontadas em todas as
cidades do Estado e que foram embora, cada vez mais pra longe,
repetindo o mesmo cenário anterior. Ficaram os escombros.
É por isso que digo que o futuro tem cor. E para mim a cor
preferida dele é o da flor do maracujá. Das trançadas moitas de açaí
e da bacaba. O açaí amazônico invadiu o mundo sozinho. Sem nenhuma
propaganda oficial, sem nenhum marketing prospectivo de Governo
nenhum. Ele entrou nas academias na base do boca a boca. No gosto
mundial pelo exótico indígena. Que tal trocar celular por bacaba? Que
tal vender comida típica para mundo digital? Que tal deixar de agora
em diante a floresta em pé e vender a castanha do Brasil para o mundo
inteiro?
Oh! Homem genial, pós-moderno, raro, matemático, exato,
lógico, quase perfeito, quem és tudo homem robotizado, para desafiar
as coisas simples, evidentes, comuns, naturais, quem és tu doidivanas
que não vês com teus pobres olhos de lentes de contatos as cores da
flor do maracujá?